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sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

O Motivo da Criança Divina



Por: Lord Vader

Ao longo de todo o curso da humanidade, um determinado motivo frequentemente surge em diversas manifestações folclóricas e culturais, lendas, mitos, religiões e mais recentemente, em sua forma moderna, ou seja, na cultura pop. É o motivo da criança-divina. Nós humanos somos simplesmente fascinados pelo motivo, mas o que quase nunca nos ocorre entretanto é que tal motivo é na verdade a expressão de um elemento inato do psiquismo, presente em todos os seres humanos. Ou seja, trata-se de um arquétipo, conceito introduzido dentro da psicanálise por Jung, o célebre psiquiatra suíço e enfant terrible de Freud.




Os arquétipos são nada mais do que elementos presentes em nossa psique primitiva (ou inconsciente coletivo, isto é, a porção do inconsciente comum a todos), cujas raízes estão nas experiências vividas por incontáveis gerações ao longo do curso de evolução da espécie, de modo que acabaram por tornar-se uma porção atávica do nosso psiquismo. Assim, os humanos nascem com um grande número de arquétipos herdados, da mesma forma como os patos sabem que precisam migrar para o sul no próximo inverno sem que ninguém os ensine o caminho.

Este arquétipo foi moldando-se no psiquismo da humanidade à medida que, e porque, todos os humanos, sem excessão, ao longo de toda nossa linha ancestral, foram crianças. Todos os desejos, necessidades, conflitos e dificuldades infantis foram igualmente por todos vivenciados. Sendo assim, muitas idéias acabam ligando-se de forma indelével e irremediável à figura da criança, por associação. De fato, ao nascermos e nos desenvolvermos, isto é, até adquirirmos a noção de nosso lugar no mundo, é preciso que seja superada uma verdadeira corrida de obstáculos existênciais, que deixou marcas permanentes no aparelho psiquico da espécie.



A começar pelo nascimento, via de regra difícil, fruto de uma concepção "desconhecida", entendida inconscientemente como "miraculosa", passando-se pelo desamparo da primeira infância, quando o bebê, duramente se dá conta que não é um espelho de sua mãe, mas sim uma entidade autônoma que está sozinha no mundo. A seguir, uma avalanche de medos, dúvidas, desejos, sensações e descobertas desconcertantes e desconhecidas irá permear a sua vida, até que, finalmente, emerge dali, do meio do caos, um indivíduo, vitorioso em sua jornada.

"Criança" assumirá então, dentro do inconsciente, o significa de algo que se desenvolveu rumo à autonomia, e através de articulações simbólicas, significará muito mais do que isso. A admirável criancinha, vencedora de todas as adversidades, é entendida psiquicamente como "menor do que pequeno e no entanto maior do que grande". Um herói, e porque não, um deus, invencível e possuidora de forças que ultrapassam muito a medida humana. Um ser tão pequeno e frágil, mas dotado de uma grande capacidade e sabedoria.

O Motivo da criança, como pequena, porém profundamente sábia, corajosa, forte, poderosa, deusa, notável, redentora,misteriosa etc., vem, desde tempos imemoriais, repetidamente sendo projetada a partir do inconsciente humano, numa linha deslizante, que, sempre a partir do arquétipo, nos trouxe personagens tão prezados dentro do imaginário humano como: Eros(o cupido) - e os anjinhos em geral, o menino Jesus, elfos, duendes e demais "homenzinhos" personificadores das forças da natureza, os sete anões, o pequeno polegar, homúnculos, pequenos animais sábios e falantes, e, mais recentemente, os extra-terrestres, o mestre dos magos, o "menino-deus de um corpo azul dourado", Mestre Yoda,etc., e até mesmo, Lisa Simpson, Mafalda e Calvin. Todas representações deslocadas e disfarçadas da mesma idéia básica. Não é raro encontrarem-se pessoas que tenham medo de crianças, por identificá-las com o misterioso arquétipo.





O motivo da criança não deve ser confundido com a percepção da criança real. Trata-se de uma representação, um meio de expressão de um fato mental escrito no inconsciente. A representação mitológica da criança não é de forma alguma uma cópia da "criança" empirica, mas um símbolo fácil de ser reconhecido como tal: trata-se de uma criança divina, prodigiosa, não precisamente humana, gerada, nascida criada em circunstâncias totalmente extraordinárias. Considero, humildemente, o conceito de arquétipo e inconsciente coletivo, a maior contribuição de Jung ao campo psicanalítico, fato que, o próprio Freud precisou reconhecer, ainda que em seu ensaio póstumo, "Moisés e o Monoteísmo".


Lord Vader

ensaiosemanifestos@hotmail.com



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