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quinta-feira, 5 de maio de 2011

A Filosofia e seus Contrastes



Por : Emmanuelle Pesch

A filosofia, atualmente inserida no Ensino Médio como disciplina regular, é questionada com frequência sobre a sua importância, muitas vezes enfrentando preconceitos por parte de professores das outras disciplinas e até das próprias instituições de ensino. O motivo maior dessa ‘rejeição’ à filosofia deve-se ao seu caráter não-metodológico, pois ao contrário das disciplinas técnicas, a filosofia não apresenta respostas absolutas, nem segue padrões de ensino.
Na educação, a filosofia visa levar ao aluno um estudo histórico acerca dos pensamentos que contribuíram para a formação das ciências, estimulando-os à reflexão – acerca da realidade, das informações que recebe, da sociedade como um todo e de si próprio. Outro objetivo é a preocupação em capacitar o aluno na formação do senso crítico, como a formação de argumentos coerentes e a auto-análise, para que o aluno não apenas reproduza o que ouve e lê, mas que também questione-se e compreenda.
A filosofia se preocupa com o entendimento da disciplina em sua totalidade, a essência da compreensão, do processo investigativo, e não a simples normatização do processo compreensivo, onde os conteúdos são esquematizados e apenas decorados pelos alunos. A hermenêutica - um ramo da filosofia que se debate com a compreensão humana e a interpretação de textos escritos – não é científica, mas filosófica, e é existencial e não metodológica. Dá-se, a partir daí, o contraste entre a filosofia e as disciplinas de caráter técnico.

A caracterização do pensar como theoria e a determinação do conhecer como postura ‘teórica’ já ocorrem no seio da interpretação técnica do pensar. É uma tentativa reacional, visando a salvar também o pensar, dando-lhe ainda uma autonomia em face do agir e operar. Desde então, a filosofia está constantemente na contingência de justificar sua existência em face das ‘Ciências’. (HEIDEGGER, 1979, p. 150)





As disciplinas técnicas como a Matemática, estão diretamente inseridas nos concursos públicos e vestibulares, o que intensifica sua relevância no âmbito social. A intenção mais comum entre os estudantes do ensino médio é a aprovação nesses concursos, principalmente para as vagas nas universidades. Como a disciplina de filosofia não se destaca como presença nas questões desses concursos, muitas vezes o aluno acaba por não conhecer sua importância, e passa a vê-la com banalidade.
Ressalto aqui a falta de comprometimento que a educação brasileira apresentou até agora em relação a filosofia, desaparecendo por diversas vezes do cenário educacional do país.
De acordo com a trajetória instável da filosofia na educação, e considerando sua extinção principalmente na época da ditadura militar em 1972, e com tantos fatos intrigantes que acontecem na realidade do país, principalmente nas relações políticas, podemos ficar com a impressão de que as nossas autoridades não apresentam interesse em formar pessoas pensantes e questionadoras.
É nitidamente conveniente aos responsáveis por muitas das injustiças sociais que a população brasileira ocupe-se com questões voltadas a prática metodológica, do que oferecer aos cidadãos a chance de abrir os olhos – ou platonicamente sair da caverna escura. De acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais,

Independente da maneira como uma determinada orientação filosófica esteja configurada, ela sempre concebe seu empreendimento não tanto como uma investigação que tematiza diretamente este ou aquele objeto, mas, sobretudo, enquanto um exame de como os objetos podem nos ser dados no processo de conhecimento, como eles se tornam acessíveis para nós. Mais do que aquilo que se tem diante da visão, a atividade filosófica privilegia o ‘voltar atrás’. (PCN, 2000)

A filosofia se contrapõe com as disciplinas técnicas por essa atitude de reflexão, de análise do objeto de estudo como um todo, e não apenas ao fim a que este se destina. “A técnica é a essência do saber, que não visa conceitos e imagens, nem o prazer do discernimento, mas o método, a utilização do trabalho de outros, o capital”. (ADORNO; HORKHEIMER, 1985)

Porém, uma vez integrada na educação, a filosofia corre o risco de virar método ao obedecer os padrões educacionais. Cabe então, ao professor, saber adequar a disciplina sem que ela perca seu caráter diferenciado. Uma opção interessante seria adotar maneiras alternativas de ensinar a filosofia, com músicas, textos e imagens que façam parte da realidade do aluno e que possam ser relacionados com os temas filosóficos a serem apresentados.
Outro risco que a disciplina de filosofia corre é a sua exclusão – novamente – das grades curriculares. O motivo que fundamenta essa hipótese, como já foi citado, é a exigência do sistema atual em produtividade mais mecânica do que racional, mais automatizada do que reflexiva.


Contradizendo-se com a metafísica da filosofia, o objetivo principal do esclarecimento é substituir a imaginação pelo saber, tornando o homem senhor do conhecimento.
O homem tem a pretensão de respostas e verdades universais, procedimentos eficazes para facilitar a vida prática, dominando a natureza e os próprios homens. Na ciência moderna, as fórmulas e as regras acabaram substituindo os conceitos filosóficos, utilizando processos de calculabilidade do mundo, e os números ganharam proporção no ápice do esclarecimento.

O processo técnico, no qual o sujeito se coisificou após sua eliminação da consciência, está livre da plurivocidade do pensamento mítico bem como de toda significação em geral, porque a sua própria razão se tornou um mero adminículo da aparelhagem econômica a que tudo engloba. (ADORNO; HORKHEIMER, 1985)

Aqui, Adorno e Horkheimer enfatizam que o homem, quando obedece o processo técnico sem de fato utilizar a razão, perde sua consciência enquanto humano, enquanto autor de seus atos e passa a ser um objeto do tecnicismo.
E onde fica a metafísica em todo esse processo? Na razão esclarecida, viajar em mundos inteligíveis é sem sentido, a metafísica perde seu valor, e domina a ausência da busca pelo entendimento da alma, do sublime, o universo é limitado.
Segundo Adorno e Horkheimer , o esclarecimento “pôs de lado a exigência clássica de pensar o pensamento [...], o processo matemático tornou-se, por assim dizer, o ritual do pensamento. Ele se instaura como necessário e objetivo: transforma o pensamento em instrumento igualando-o ao mundo”.
A própria natureza é expressa como uma multiplicidade matemática, onde os mistérios não se fazem presentes. Há uma verdade à priori, que só precisa ser esquematizada, como se o mundo não fosse uma incógnita em permanente construção, mas que precisa ser solidificada e passível de explicação.

A racionalidade técnica hoje é a racionalidade da própria dominação. Ela é o caráter compulsivo da sociedade alienada de si mesma. (...) Por enquanto, a técnica da indústria levou apenas a padronização e a produção em série, sacrificando o que fazia diferença entre a lógica da obra e a do sistema social. Isso, porém, não deve ser atribuído a nenhuma lei evolutiva da técnica enquanto tal, mas a sua função na economia atual. (ADORNO; HORKHEIMER, 1985)

Um fator que torna o homem humano insubstituível é a sua capacidade de se apropriar do inteligível, de ser tocado pelo sensível. Um exemplo cômico disso pode ser notado pela interpretação de Charles Chaplin no filme ‘Tempos Modernos’, onde a máquina não só substitui o trabalho manual do homem – influências da Revolução Industrial – mas também o domina a ponto dele próprio se sentir impotente diante do seu próprio mundo. Porém, a identidade e a imaginação não são de forma alguma produzidas pela técnica.

A cultura de cada ser humano, suas experiências, dificuldades, expectativas, princípios, não existem para a realidade técnica, que enxerga todos os homens como um só, como na música ‘Admirável gado novo’, do Zé Ramalho, “(...) vida de gado, povo marcado e povo feliz”, o compositor nos faz refletir que o homem, ao fazer parte da massificação imposta pela técnica, pode-se comparar aos gados em uma fazenda, onde todos são iguais, fazem as mesmas coisas, respeitam os mesmos limites e, inconscientes de sua condição, acabam por se contentar com essa realidade.
De acordo com Adorno e Horkheimer “o terreno no qual a técnica conquista seu poder sobre a sociedade é o poder que os economicamente mais fortes exercem sobre a sociedade”. Ou seja, os desejos e ideais do povo são geralmente imitações da indústria cultural dominante, que mesmo sem o público perceber, está sendo constantemente manipulado, pois o fator econômico predomina sobre a sociedade, e os mais ricos influenciam e direcionam a indústria comercial.

“A racionalidade técnica hoje é a racionalidade da própria dominação. Ela é o caráter compulsivo da sociedade alienada de si mesma”. (ADORNO; HORKHEIMER, 1985).

Infelizmente, a técnica da indústria não se tornou culturalmente uma revolução com grandes êxitos positivos, ao se pensar a potência que ela teria para tanto, mas se tornou uma produção em série, apenas réplicas padronizadas. O público aceita e se deixa iludir pelas falsas verdades.

Embora existam muitas diferenças nos pensamentos de Adorno e Horkheimer em relação a Heidegger, ambos se preocupam com a massificação presente na realidade do homem moderno, que cada vez mais estagnado, deixa-se diminuir pela não-cultura:
Ao subordinar da mesma maneira todos os setores da produção espiritual a este fim único: ocupar os sentidos dos homens da saída da fábrica, à noitinha, até a chegada ao relógio de ponto, na manhã seguinte, com o selo da tarefa de que devem se ocupar durante o dia, essa subsunção realiza ironicamente o conceito da cultura unitária que os filósofos da personalidade opunham à massificação. (ADORNO & HORKHEIMER, 1985)

Os meios de comunicação em massa são aceitos pelos olhares ingênuos da população como fonte de verdade absoluta, como se a realidade transmitida através da televisão fossem o espelho do país, e não passa pela mente dos fiéis telespectadores que a imagem que reflete essa realidade pode ser um produto contraditório. O público hoje está preso na televisão como os homens antigos estavam presos á caverna, na alegoria de Platão, sem investigar de fato a realidade, e se ater ao que lhe é transmitido como única fonte de verdade.

Um contraste entre a técnica e a filosofia, pode ser exemplificado com o homem coletivo - produto da indústria cultural - e o homem filósofo, pois o homem coletivo tem pensamentos, ações, preferências e objetivos quase idênticos uns dos outros, é ausente de autenticidade e reflexão sobre si mesmo e está diretamente ligado ao consumismo e a produção, faz parte da massificação. E põe-se em contraponto com o homem filósofo, criativo, independente da indústria cultural, que entende a filosofia como um magnífico instrumento de decodificação do mundo.

Emmanuelle Pesch
manu_pesch@hotmail.com



3 comentários:

  1. Quero parabenizar o artigo pela forma sucinta e didática como definiu filosofia.Como muitos também fui vítima de uma educação pragmática e mecanicista,nunca tive ou ouvi falar sequer uma linha em minha vida escolar(e nisso incluo meu curso superior) em filosofia.Tudo que eu sei apreendi por conta própria.Em contrapardida educação religiosa,Moral e Cívica,OSPB e outras matérias obrigatórias fui obrigado a engolir.É certo que a revolução industrial destruiu a capacidade do homem de pensar,refletir e até sonhar,prova disso,foi a ascensão de cultos de cunho dogmático(principalmente os prosélitos),por todo o globo,que ficou pior depois da segunda guerra mundial.

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    1. Agradeço seu comentário, Helio Dehon. Realmente, é preciso que a sociedade compreenda a importância da filosofia na educação brasileira, oferecendo meios para a evoluçao em massa do pensamento.

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  2. A filosofia é uma ferramenta da compreensão. Daí que seja necessária para uma compreensão multidisciplinar e nunca descartável pelas restantes disciplinas do saber.

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