Ensaio : Texto literário breve , entre o poético e o didático , expondo idéias , críticas e reflexões morais e/ou filosóficas acerca de certo tema. Defesa de um ponto de vista pessoal e subjetivo sobre um tema , sem que se paute em formalidades como documentos ou provas empíricas ou dedutivas.
Manifesto : Declaração publica de razões que justifiquem certos atos ou fundamentos. Ato de manifestar um desejo , atitude ou repúdio.

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quarta-feira, 18 de maio de 2011

A triste discussão sobre o Código Florestal




Por : Edson Struminski

Eu não ia me envolver nas discussões sobre a revisão do Código Florestal, pois elas me lembram da existência dos atrasos que ainda teimam em existir no nosso país, como os  emperros da reforma agrária, os resquícios de escravidão em rincões do país, ou aqueles métodos de exploração da natureza do século XIX que ainda são usados em pleno século XXI, como latifundios pouco produtivos, queimadas, exploração mineral toscas ou fornos de carvão, imagens que se contrapõem ao agronegócio moderno, à tecnologia e a ciência no meio rural, à sustentabilidade ambiental e a um país moderno, enfim.
Como isto são resquícios do passado e a sociedade se democratizou apenas recentemente, é de se esperar que a reforma deste código aconteça, mas ela tem sido marcada por pressões e radicalismos nem sempre produtivos e pelo passado…

Estes temas são sempre cansativos, mas o fato é que alguns dos principais personagens envolvidos na votação das mudanças nesta lei florestal me trouxeram involuntariamente para este debate, então tornou-se necessário uma apreciação minha sobre este assunto.
Neste momento (maio de 2011), estão ocorrendo vários enfrentamentos para a votação do Código Florestal. Dias em que ambientalistas, ruralistas, cientistas, governistas, oposicionistas, estão todos estressados com a lei mater de nosso meio ambiente e até mesmo fazem barganhas com o futuro do país.
As leis florestais são antigas no Brasil, o termo “madeira de lei” significa isto mesmo, algumas madeiras provenientes de árvores, que por uma lei portuguesa do tempo da colônia, necessitavam de uma espécie de “licença para corte”, pois tinham interesse para a Metrópole portuguesa. Estas leis na colônia tinham o objetivo de conter o contrabando e evitar o desabastecimento de um produto que era considerado estratégico na época, as madeiras de alta qualidade para fins naval e que, portanto, tinham alto valor comercial.

Mas estas leis não foram satisfatórias. No início do século XIX, por conta de um modelo predatório de colonização com mais de 300 anos, já era possível ver o resultado. Cientistas e estadistas como José Bonifácio já notavam que a destruição do meio natural estava gerando repercussões sociais muito amplas, com a desagregação das comunidades, pela desorganização das atividades produtivas e da vida civil, que, na visão dele, requereriam estabilidade territorial e demográfica, com isto a conservação das florestas era um assunto recorrente para ele, que chegou a escrever sobre este tema analisando tanto a situação de Portugal como a brasileira.
Na época da independência do país, ele propôs novos regulamentos e uma administração fundamentada em conhecimentos científicos e na experiência, algo que na prática levaria ainda mais de 100 anos para ter uma chance de acontecer. Ela propunha um discurso novo, de proteção dos recursos naturais do país, que considerava como trunfo do Brasil para seu progresso futuro, o que passaria pela superação, entre outras coisas, do modelo agrícola colonial latifundiário, monocultural e predatório.

Mas com isto ele se chocou diretamente com o pensamento conservador predominante, tanto em Portugal como no Brasil, tendo de enfrentar oposições e resistências a seus projetos, que batiam de frente contra traficantes de escravos e proprietários rurais que eram a base das fortunas e do poder conservador da própria monarquia brasileira.Esta história, que contei aqui de forma reduzida foi publicada com um pouco mais de detalhes em um artigo que publiquei, em 2007, no jornal eletrônico Ciência Hoje, de Portugal, a partir de textos do próprio Bonifácio. (leia aqui)
Ao longo do tempo outras leis foram surgindo. Cheguei a fazer um apanhado delas no meu primeiro livro: “
O que é engenharia florestal” 



 O fato é que Bonifácio foi derrotado e apenas quando já ia longe a república é que viria uma legislação mais integrada para a área florestal. Em 1934 surgiu uma primeira consolidação de leis florestais dispersas. Foi fruto do esforços de juristas durante o período Vargas.
O Código Florestal da Era Vargas era muito mais uma lei oportunista do que qualquer coisa. Excessivamente liberal, ele corria atrás da oportunidade do surgimento de um mercado para a madeira brasileira, em particular do pinheiro do Paraná e ignorava, ou pior ainda, lamentava, a existência da biodiversidade brasileira, fazendo vista grossa para o desmatamento que já ocorria no país. Mesmo assim ela implantou inovações como parques nacionais e um serviço florestal nacional. Também esta história está contada em um artigo da Ciência Hoje.

Curiosamente estes artigos da Ciência Hoje de Portugal, que eu classifico como sendo de história ambiental de nosso país tem tido os destinos mais variados. Já vi migrarem para um site de psicologia, de educação, de sociologia, de história ou mesmo para o site da embaixada de Portugal.
Um dos locais para onde artigos meus migraram, como este do código de Vargas, foi o blog de Ciro Siqueira, um engenheiro agrônomo que milita em seu blog para que deixem de existir Reservas Legais em propriedades privadas. Ele costuma juntar argumentos para mostrar que as leis florestais não funcionam, o que é apenas parcialmente verdade, pois praticamente todas foram feitas de forma autoritária e hoje estamos em uma democracia, momento em que as leis tem maiores chances de serem aplicadas e funcionarem.
Infelizmente Ciro parece ser do tipo destemperado, assim algumas das suas opiniões, até razoáveis, pois o código já tem quase 50 anos, são empalidecidas por opiniões destemperadas. Ele costuma escrever coisas do tipo: “os idiotas úteis do ambientalismo cibernético estão hoje alvoroçados com a notícia de que a Academia Brasileira de Ciência (ABCD) e a Sociedade Brasileira para a Preservação dos Paradigmas (SBPC) lançarão em breve um libelo contra a modernização do Código Florestal”. Mas o que se vê no tal relatório destas entidades é o resultado de um debate e até mesmo uma proposta de revisão, com viés científico, mas não estanque.

Com isto, cientistas são para ele: alheios à realidade nacional, já o Conama, Conselho Nacional do Meio Ambiente, aparece como estando impregnado de ambientalistas, já os orgãos ambientais são ridicularizados, até quando fazem justamente o que ele criticava, aplicam a lei. Tudo isto, infelizmente desvaloriza o esforço deste profissional e o coloca em uma posição tão radical quanto os radicais que ele critica.
Finalmente, a posição oficial dele é a de que apenas o Estado deve ser responsável pelas reservas florestais, pois ele considera que a função social da propriedade rural é produzir alimentos. Assim, segundo ele, caso haja propriedades em regiões ecologicamente importantes onde a preservação conflita com a produção (?), não deveriam haver produtores nessa região e o Estado deveria removê-los completamente. Lamentavelmente esta é a principal falha do raciocínio deste autor e a mais danosa ao meio rural. Pois é uma ação extremamente contraditória, custosa e desarticuladora para o meio rural. Imagine-se o ônus (impostos, novo funcionalismo público, estatais) e redirecionamento de recursos com que toda a sociedade, principalmente a que ocupa o meio rural, teria de arcar para atender a esta proposta. O Estado se tornaria imensamente mais invasivo do já é hoje, sem considerar outras formas de desapropriação que já existem e que continuariam a existir (reforma agrária, unidades de conservação, construções de represas, estradas, etc), pois a biodiversidade ambiental do país é imensa e imensos teriam de ser os esforços estatais para preservá-la, no lugar da forma como é hoje, em que o estado preserva algumas áreas e o proprietário privado outras e com isto surgem reservas públicas e privadas e “corredores” entre estas reservas. Enfim, aparentemente sem perceber, Ciro dá um tiro no pé das próprias ideias.



 O outro personagem ligado ao debate do código e que usa um texto meu como fonte de inspiração sobre José Bonifácio é o próprio deputado Aldo Rebelo, relator do projeto de mudança do Código Florestal. O projeto de Aldo é um grande arrazoado sobre o meio rural, com um tanto de saudosismo sobre o homem do campo, misturado com pitadas de nacionalismo, marxismo e até teoria da conspiração, mas tem poucos fundamentos técnicos para mudanças na lei, daí entende-se a vasta polêmica que suscitou. Ao contrário da visão de estadista de Bonifácio, preocupado com a implantação de uma visão integrada homem-natureza em nosso país, o projeto de Aldo tenta nos ganhar pela visão conservadora, defensiva e muito unilateral do meio rural, o que não seria tão problemático se a sociedade brasileira inteira, aliás o mundo inteiro não fosse afetado pela construção de uma nova lei falha.
A parte mais substancial do relatório de Aldo Rebelo diz respeito a opinião de alguns poucos juristas e cientistas. Ali aparecem ideias pouco exploradas e que deveriam merecer, sim, maiores atenções, como o zoneamento ecológico-econômico e as peculiaridades regionais, o que poderia beneficiar tanto a produção quanto a conservação. Isto simplificaria e tornaria a discussão estritamente com base naquilo que interessa a cada região.
Mas isto não acontece e assim Aldo Rebelo fica longe do estadista José Bonifácio. O seu projeto deseduca, pois os estímulos à conservação e bom uso da natureza do país são pobres em relação aos danos que ficarão com a implantação da nova lei.  Os principais beneficiários, anistiados da lei atual, serão provavelmente os donos de grandes áreas desmatadas, como aquelas que vi na minha última visita à Amazônia (
link aqui). Ironicamente os personagens que estavam sendo pressionados pelo Estado e pela lei atual e que os partidos com um viés social mais acentuado, como o partido de Aldo, sempre combateram

Edson Struminski


terça-feira, 10 de maio de 2011

Em Defesa dos Pré - Socráticos




Por : Hélio Dehon

O que pensamos quando falamos em origem Grega da filosofia ? Sócrates, a grande gênese do pensamento, um dos grandes responsáveis pelo milagre, nunca escreveu nada, sempre perambulando por uma Atenas que ainda não preparada para o pensamento radical do esfarrapado filósofo, foi morto pela cicuta. Platão, honroso, lutador de ombros largos, nunca vacilante, adversário retórico invencível. Ficou para a posteridade intelectual como um divisor de águas, lançando base para o pensamento moderno,com a inauguração da academia, a invenção do filósofo-rei e o conceito das IDÉIAS PURAS. Aristóteles, espírito mais científico, observador e classificador da natureza, professor de Alexandre da Macedônia, não há quem negue a importância do Estagirita.

E quanto aos ditos Pré-Socráticos ? Pensadores menores, marginalizados, associados aos sofistas na qual a própria etimologia da palavra já revela seu destino, pensadores falsos, mercenários e cobradores de seus serviços ( algo impensado pelo filósofo da Academia ou do Liceu ). Sempre lembrados por sua linha de pensamento ( atomistas, hedonistas, epicuristas, céticos, cínicos) ou localização geográfica ( Jônicos, Itálicos, Abderitanos,Cirenaicos) todas cidades marginais da gloriosa Atenas, mesmo Epicuro que tinha seus jardins por lá, ainda é lembrado como “ de Samos ”. Algumas definições vão além: beberrões, se juntando a prostitutas, onanistas, glutões, orgiáticos , marginais e anti-sociais, sempre entregues ao PRAZER.O próprio termo PRÉ revela-nos um problema.Quando citamos os Jônicos, Itálicos e Eleatas nos referimos em caráter temporal a pessoas anteriores a Sócrates. Mas quando nos referimos aqueles que viveram ( e em alguns casos até conviveram ) com o filósofo da cicuta e seu pupilo mais famoso ? Principalmente os Cirenaicos e Abderitanos ? É aí que toda a trama formada por dois milênios se revela. Aí o termo PRÉ deixa de ser temporal e se torna conceitual e até pré-conceitual, como uma filosofia inacabada, não cristalizada, um pré pensamento menor, um vir-a-ser para o grande momento filosófico catártico na cidade-estado!
As palavras em negrito acima denunciam a razão. De um lado uma filosofia das idéias puras, do surgimento de um mundo inteligível e de pensamento transcendental. O pensamento se torna dualista e maniqueísta( corpo sempre desvencilhado da alma imaterial ), a verdade jamais poderá ser alcançada nesse mundo, a alegoria da caverna nos diz isso. Vivemos na aparência, vendo vultos e fantasmas do que um dia poderá nos ser revelado ou não,em uma esfera superior. Por outro lado as idéias materialistas e sensíveis desse e somente desse mundo. Monismo e imanentismo, pois, não há lugar para alma imortal nem mundo inteligível, a própria alma é formada de átomos (mais finos e leves), e quando da morte nada restará, por isso não é preciso ter medo dela. A única ética é a do prazer, do bem estar e da felicidade suprema (hedonismo e eudemonismo).

 

 Platão foi influência primordial do cristianismo. O próprio Paulo de Tarso, estrategista do cristianismo, foi diretamente tocado por essas idéias já que era helenizado, apesar de judeu que era, e teve sua educação pautada na escola grega clássica. E com o passar do tempo, já na idade média, toda a teologia de Santo Agostinho foi criada a partir das idéias transcendentais e dualistas do platonismo. Mas não só os bispos da patrística foram influenciados, depois com a escolástica foi a vez de Aristóteles, com todas as suas teses  lógicas e evidenciando o pensamento especulativo ao invés da observação e experiência ( algo que perduraria por quase mil anos ). Com a instituição da Teocracia católica, o pensamento Platônico criou corpo e começou a fazer parte do inconsciente coletivo mesmo nos dias modernos. Pouco a pouco os filósofos antigos que não professavam as mesmas doutrinas maniqueístas foram esquecidos, marginalizados, se tornaram linhas de rodapé de livros, escondidos em cantos ocultos das bibliotecas universitárias de todo o mundo civilizado, servindo de sub pensamento até serem finalmente classificados como PRÉ!
Como prestigiar a afirmação do corpo sobre a alma, o imanente sobre o transcendente, o finito sobre o infinito, a vida terrena e única sobre a vida celestial e eterna, o hedonismo sobre o ascetismo. O próprio conceito de prazer e sensual mudaram de significado com o passar dos tempos, sempre associados mais ao caráter sexual que natural da questão. Sensual provém dos sentidos daquilo que podemos não só ver e ouvir, mas tocar, cheirar e degustar, sentidos esses últimos também pormenorizados por unirem o homem a suas origens animais, coisa inaceitável para a perfeição celestial. Só o corpo pode sentir, só a matéria e nada mais. Prazer tem mais a ver com a não aceitação daquilo que faz mal ou o desprazer, a convivência comunal, uma boa alimentação, saúde plena e é óbvio, uma vida sexual plena. Hedonismo visto como devassidão, aí uma coisa que os deturpadores do mundo natural sempre se empenharam em fazer!
Com essa concorrência desleal o “Triunvirato” filosófico, dificilmente será substituído dos livros, manuais, documentários como os verdadeiros demiurgos do pensamento moderno. A não ser que de tempos em tempos surjam pessoas levantando a bandeira dos “pré-socráticos” (Nietzsche, Carl Sagam, Michel Onfray,etc), para poucos mas atentos leitores.


Hélio Dehon
dehon732003@yahoo.com.br


quinta-feira, 5 de maio de 2011

A Filosofia e seus Contrastes



Por : Emmanuelle Pesch

A filosofia, atualmente inserida no Ensino Médio como disciplina regular, é questionada com frequência sobre a sua importância, muitas vezes enfrentando preconceitos por parte de professores das outras disciplinas e até das próprias instituições de ensino. O motivo maior dessa ‘rejeição’ à filosofia deve-se ao seu caráter não-metodológico, pois ao contrário das disciplinas técnicas, a filosofia não apresenta respostas absolutas, nem segue padrões de ensino.
Na educação, a filosofia visa levar ao aluno um estudo histórico acerca dos pensamentos que contribuíram para a formação das ciências, estimulando-os à reflexão – acerca da realidade, das informações que recebe, da sociedade como um todo e de si próprio. Outro objetivo é a preocupação em capacitar o aluno na formação do senso crítico, como a formação de argumentos coerentes e a auto-análise, para que o aluno não apenas reproduza o que ouve e lê, mas que também questione-se e compreenda.
A filosofia se preocupa com o entendimento da disciplina em sua totalidade, a essência da compreensão, do processo investigativo, e não a simples normatização do processo compreensivo, onde os conteúdos são esquematizados e apenas decorados pelos alunos. A hermenêutica - um ramo da filosofia que se debate com a compreensão humana e a interpretação de textos escritos – não é científica, mas filosófica, e é existencial e não metodológica. Dá-se, a partir daí, o contraste entre a filosofia e as disciplinas de caráter técnico.

A caracterização do pensar como theoria e a determinação do conhecer como postura ‘teórica’ já ocorrem no seio da interpretação técnica do pensar. É uma tentativa reacional, visando a salvar também o pensar, dando-lhe ainda uma autonomia em face do agir e operar. Desde então, a filosofia está constantemente na contingência de justificar sua existência em face das ‘Ciências’. (HEIDEGGER, 1979, p. 150)





As disciplinas técnicas como a Matemática, estão diretamente inseridas nos concursos públicos e vestibulares, o que intensifica sua relevância no âmbito social. A intenção mais comum entre os estudantes do ensino médio é a aprovação nesses concursos, principalmente para as vagas nas universidades. Como a disciplina de filosofia não se destaca como presença nas questões desses concursos, muitas vezes o aluno acaba por não conhecer sua importância, e passa a vê-la com banalidade.
Ressalto aqui a falta de comprometimento que a educação brasileira apresentou até agora em relação a filosofia, desaparecendo por diversas vezes do cenário educacional do país.
De acordo com a trajetória instável da filosofia na educação, e considerando sua extinção principalmente na época da ditadura militar em 1972, e com tantos fatos intrigantes que acontecem na realidade do país, principalmente nas relações políticas, podemos ficar com a impressão de que as nossas autoridades não apresentam interesse em formar pessoas pensantes e questionadoras.
É nitidamente conveniente aos responsáveis por muitas das injustiças sociais que a população brasileira ocupe-se com questões voltadas a prática metodológica, do que oferecer aos cidadãos a chance de abrir os olhos – ou platonicamente sair da caverna escura. De acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais,

Independente da maneira como uma determinada orientação filosófica esteja configurada, ela sempre concebe seu empreendimento não tanto como uma investigação que tematiza diretamente este ou aquele objeto, mas, sobretudo, enquanto um exame de como os objetos podem nos ser dados no processo de conhecimento, como eles se tornam acessíveis para nós. Mais do que aquilo que se tem diante da visão, a atividade filosófica privilegia o ‘voltar atrás’. (PCN, 2000)

A filosofia se contrapõe com as disciplinas técnicas por essa atitude de reflexão, de análise do objeto de estudo como um todo, e não apenas ao fim a que este se destina. “A técnica é a essência do saber, que não visa conceitos e imagens, nem o prazer do discernimento, mas o método, a utilização do trabalho de outros, o capital”. (ADORNO; HORKHEIMER, 1985)

Porém, uma vez integrada na educação, a filosofia corre o risco de virar método ao obedecer os padrões educacionais. Cabe então, ao professor, saber adequar a disciplina sem que ela perca seu caráter diferenciado. Uma opção interessante seria adotar maneiras alternativas de ensinar a filosofia, com músicas, textos e imagens que façam parte da realidade do aluno e que possam ser relacionados com os temas filosóficos a serem apresentados.
Outro risco que a disciplina de filosofia corre é a sua exclusão – novamente – das grades curriculares. O motivo que fundamenta essa hipótese, como já foi citado, é a exigência do sistema atual em produtividade mais mecânica do que racional, mais automatizada do que reflexiva.


Contradizendo-se com a metafísica da filosofia, o objetivo principal do esclarecimento é substituir a imaginação pelo saber, tornando o homem senhor do conhecimento.
O homem tem a pretensão de respostas e verdades universais, procedimentos eficazes para facilitar a vida prática, dominando a natureza e os próprios homens. Na ciência moderna, as fórmulas e as regras acabaram substituindo os conceitos filosóficos, utilizando processos de calculabilidade do mundo, e os números ganharam proporção no ápice do esclarecimento.

O processo técnico, no qual o sujeito se coisificou após sua eliminação da consciência, está livre da plurivocidade do pensamento mítico bem como de toda significação em geral, porque a sua própria razão se tornou um mero adminículo da aparelhagem econômica a que tudo engloba. (ADORNO; HORKHEIMER, 1985)

Aqui, Adorno e Horkheimer enfatizam que o homem, quando obedece o processo técnico sem de fato utilizar a razão, perde sua consciência enquanto humano, enquanto autor de seus atos e passa a ser um objeto do tecnicismo.
E onde fica a metafísica em todo esse processo? Na razão esclarecida, viajar em mundos inteligíveis é sem sentido, a metafísica perde seu valor, e domina a ausência da busca pelo entendimento da alma, do sublime, o universo é limitado.
Segundo Adorno e Horkheimer , o esclarecimento “pôs de lado a exigência clássica de pensar o pensamento [...], o processo matemático tornou-se, por assim dizer, o ritual do pensamento. Ele se instaura como necessário e objetivo: transforma o pensamento em instrumento igualando-o ao mundo”.
A própria natureza é expressa como uma multiplicidade matemática, onde os mistérios não se fazem presentes. Há uma verdade à priori, que só precisa ser esquematizada, como se o mundo não fosse uma incógnita em permanente construção, mas que precisa ser solidificada e passível de explicação.

A racionalidade técnica hoje é a racionalidade da própria dominação. Ela é o caráter compulsivo da sociedade alienada de si mesma. (...) Por enquanto, a técnica da indústria levou apenas a padronização e a produção em série, sacrificando o que fazia diferença entre a lógica da obra e a do sistema social. Isso, porém, não deve ser atribuído a nenhuma lei evolutiva da técnica enquanto tal, mas a sua função na economia atual. (ADORNO; HORKHEIMER, 1985)

Um fator que torna o homem humano insubstituível é a sua capacidade de se apropriar do inteligível, de ser tocado pelo sensível. Um exemplo cômico disso pode ser notado pela interpretação de Charles Chaplin no filme ‘Tempos Modernos’, onde a máquina não só substitui o trabalho manual do homem – influências da Revolução Industrial – mas também o domina a ponto dele próprio se sentir impotente diante do seu próprio mundo. Porém, a identidade e a imaginação não são de forma alguma produzidas pela técnica.

A cultura de cada ser humano, suas experiências, dificuldades, expectativas, princípios, não existem para a realidade técnica, que enxerga todos os homens como um só, como na música ‘Admirável gado novo’, do Zé Ramalho, “(...) vida de gado, povo marcado e povo feliz”, o compositor nos faz refletir que o homem, ao fazer parte da massificação imposta pela técnica, pode-se comparar aos gados em uma fazenda, onde todos são iguais, fazem as mesmas coisas, respeitam os mesmos limites e, inconscientes de sua condição, acabam por se contentar com essa realidade.
De acordo com Adorno e Horkheimer “o terreno no qual a técnica conquista seu poder sobre a sociedade é o poder que os economicamente mais fortes exercem sobre a sociedade”. Ou seja, os desejos e ideais do povo são geralmente imitações da indústria cultural dominante, que mesmo sem o público perceber, está sendo constantemente manipulado, pois o fator econômico predomina sobre a sociedade, e os mais ricos influenciam e direcionam a indústria comercial.

“A racionalidade técnica hoje é a racionalidade da própria dominação. Ela é o caráter compulsivo da sociedade alienada de si mesma”. (ADORNO; HORKHEIMER, 1985).

Infelizmente, a técnica da indústria não se tornou culturalmente uma revolução com grandes êxitos positivos, ao se pensar a potência que ela teria para tanto, mas se tornou uma produção em série, apenas réplicas padronizadas. O público aceita e se deixa iludir pelas falsas verdades.

Embora existam muitas diferenças nos pensamentos de Adorno e Horkheimer em relação a Heidegger, ambos se preocupam com a massificação presente na realidade do homem moderno, que cada vez mais estagnado, deixa-se diminuir pela não-cultura:
Ao subordinar da mesma maneira todos os setores da produção espiritual a este fim único: ocupar os sentidos dos homens da saída da fábrica, à noitinha, até a chegada ao relógio de ponto, na manhã seguinte, com o selo da tarefa de que devem se ocupar durante o dia, essa subsunção realiza ironicamente o conceito da cultura unitária que os filósofos da personalidade opunham à massificação. (ADORNO & HORKHEIMER, 1985)

Os meios de comunicação em massa são aceitos pelos olhares ingênuos da população como fonte de verdade absoluta, como se a realidade transmitida através da televisão fossem o espelho do país, e não passa pela mente dos fiéis telespectadores que a imagem que reflete essa realidade pode ser um produto contraditório. O público hoje está preso na televisão como os homens antigos estavam presos á caverna, na alegoria de Platão, sem investigar de fato a realidade, e se ater ao que lhe é transmitido como única fonte de verdade.

Um contraste entre a técnica e a filosofia, pode ser exemplificado com o homem coletivo - produto da indústria cultural - e o homem filósofo, pois o homem coletivo tem pensamentos, ações, preferências e objetivos quase idênticos uns dos outros, é ausente de autenticidade e reflexão sobre si mesmo e está diretamente ligado ao consumismo e a produção, faz parte da massificação. E põe-se em contraponto com o homem filósofo, criativo, independente da indústria cultural, que entende a filosofia como um magnífico instrumento de decodificação do mundo.

Emmanuelle Pesch
manu_pesch@hotmail.com