Ensaio : Texto literário breve , entre o poético e o didático , expondo idéias , críticas e reflexões morais e/ou filosóficas acerca de certo tema. Defesa de um ponto de vista pessoal e subjetivo sobre um tema , sem que se paute em formalidades como documentos ou provas empíricas ou dedutivas.
Manifesto : Declaração publica de razões que justifiquem certos atos ou fundamentos. Ato de manifestar um desejo , atitude ou repúdio.

O Blog é aberto a todos que quiserem participar. Envie o seu ensaio ou manifesto para ensaiosemanifestos@hotmail.com , não há restrições quanto a temas ou conteúdo , desde que tenha qualidade será publicado , com o nome do autor responsável e um endereço de e-mail para contato. Se preferir participe opinando : adore , deteste , apedreje ou insense.


sábado, 9 de abril de 2011

O Brasil , a Cerveja , a Natureza e o Império ...



Por : Edson Struminski

As imagens são recorrentes: propaganda de cerveja mostra sempre lindas mulheres em roupas sumárias em alguma praia paradisíaca. Embora pareça estranho e paradoxal, a origem deste estereotipo brasileiro feminino pode estar em um período altamente conservador pelo qual o país passou, o período imperial e tem a ver com nossa natureza exuberante, índios, desmatamentos, etc...
O Império brasileiro é certamente uma instituição singular na geografia política da América e um momento único na história brasileira. Hoje temos que reconhecer, claro, que seu conservadorismo contribuiu para que o país mantivesse o sentido de nação e com a unidade do seu território, relativamente pouco afetado por guerras e revoluções desagregantes (como aconteceu na América espanhola). Da transição do período colonial português para o imperial brasileiro, mantiveram-se estruturas de governo funcionais, algumas instituições científicas e técnicas criadas durante a permanência de D.João VI no Brasil, portos abertos para o mundo, algumas experiências modernizadoras (reflexos da Revolução Industrial mundial), mas principalmente um espaço físico ainda desocupado pela civilização portuguesa e subexplorado e, portanto, passível de experiências civilizatórias e de elaboração de discursos pelos brasileiros, finalmente “donos” do seu país. Claro que, no final, seria este mesmo conservadorismo que acabaria decretando o fim do império, embora este seja tema de outro artigo.
O império aconteceu no Brasil, então, pelo entendimento da elite brasileira da época de que a monarquia aparecia como o único sistema capaz de assegurar a unidade do vasto território brasileiro e impedir o fantasma do desmembramento vivido pelas ex-colônias espanholas vizinhas e que já andava por aqui. Com isto, as representações simbólicas do poder imperial evocavam elementos de longa duração, como justiça, paz e equilíbrio, provenientes da longa tradição monárquica européia, o que de certa forma ressaltava a homogeneidade da elite política brasileira que detinha o poder na época, basicamente educada em Portugal, nos moldes da realeza e com poucos pendores para aventuras republicanas.




É efetivamente no regime monárquico que se forjou no Rio de Janeiro, então capital política, econômica e cultural do país, um padrão de comportamento mais moderno que moldaria o país no século XIX e se mantém, em muitos aspectos, até hoje. Além do Rio, situado estrategicamente no meio do país, o que impediu um maior distanciamento das províncias do centro do poder, as metrópoles regionais Recife e Salvador formariam a tríade de cidades portuárias que difundiriam a modernidade oitocentista no Império. Esta modernidade até estava calcada em um liberalismo menos conservador e produziria uma crítica social constante e ferina durante todo Império e que em raras ocasiões seria reprimida, mas seria uma modernidade urbana, restrita a estas cidades.
No entanto, mais do que se incomodar com eventuais críticas, o governo imperial estaria preocupado em forjar uma identidade própria para o país dentro do concerto de nações. Para isto seria necessário criar um discurso unificador que unisse a tradição da monarquia aos atributos naturais brasileiros.
Diante da busca por um discurso que representasse o país, o romantismo surgiu para os intelectuais comprometidos com a causa brasileira como o gênero capaz de exprimir, de forma original, as singularidades da nação. Assim, em 1836, um grupo de jovens brasileiros residentes em Paris fundou a revista Niterói, que apesar da vida curta, pode ser considerada o marco do romantismo brasileiro. A revista buscava a exaltação das originalidades brasileiras, fazendo com que o romantismo viesse de encontro ao desejo de manifestar na literatura uma especificidade do jovem país, em oposição aos cânones legados pela pátria-mãe ou pelos demais países europeus.
Enquanto isto, no Brasil, acontecia a descoberta do país pelos próprios brasileiros. Os altos funcionários imperiais começaram a apoiar a investigação científica sobre os recursos naturais do país e incentivaram a criação de novas instituições científicas, retomando a proposta do articulista da independência José Bonifácio de Andrada e Silva. Estas instituições materializaram o discurso científico cartesiano, na forma da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional (SAIN) em 1827, do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) em 1838 (ano da morte de José Bonifácio), do Núcleo Imperial de Horticultura Brasileira em 1849 e da Sociedade Vellosiana em 1851, entre outras. Os membros destas sociedades, naturalistas e técnicos, viajados e instruídos, expressavam o temor quanto ao dano ambiental pela intensificação da atividade econômica e pelo adensamento populacional e estariam fadados a enfrentar questões ambientais e de conservação da natureza.



Em, 1840, porém, a unidade do país estava ameaçada por revoltas internas e pela ausência de um verdadeiro monarca no poder, pois Pedro I voltara para Portugal e Pedro II era muito jovem. Aos 15 anos de idade ele acabaria sendo declarado maior de idade para poder assumir o poder e apaziguar o país. Apesar da juventude, Pedro II acabaria fazendo uso freqüente do poder moderador conferido pela constituição do país à sua pessoa, para decidir, como verdadeiro monarca absolutista, os destinos da nação.
Com a entrada de D.Pedro II no IHGB e seu mecenato, o romantismo brasileiro se transformaria em projeto oficial, em verdadeiro nacionalismo e como tal passaria a inventariar o que seriam as tais originalidades locais, representando o país segundo os interesses do Estado. Os intelectuais de formação cartesiana do instituto representariam de fato elementos essenciais para a construção, inclusive simbólica, da ordem nacional e de uma ponte para o relacionamento direto entre os intelectuais e o poder, mas o romantismo no Brasil, seria muito mais do que uma mera reação aos excessos materialistas e racionalistas do pensamento cartesiano, como algumas vezes se comenta. Ele seria uma ideologia de estado.



 Assim, a crítica ambiental brasileira do período acabou tendo muito pouca influência do naturalismo romântico, este movimento não pode de forma alguma ser desprezado, pois o mesmo não pode ser dito da cultura oficial, responsável pela construção de uma identidade que pudesse ser identificada como nacional. A natureza brasileira cumpriu função importante no período romântico. Sem castelos medievais, templos romanos antigos e poucas batalhas heróicas para relembrar, sobravam o maior dos rios, a mais bela vegetação, cachoeiras gigantescas e árvores enormes, além, é claro, dos seus habitantes nativos, originalmente (como mostra a carta do descobrimento de Pero Vaz de Caminha) tão receptivos e liberais na sua pureza original. Assim, é entre palmeiras, abacaxis e aves silvestres, que apareceriam caracterizados o monarca ou a nação, tanto em técnicas tradicionais como na pintura como em inovadoras como na fotografia, da qual Pedro II foi entusiasta. Os índios atuavam como nobres no exuberante cenário da floresta brasileira e em total harmonia com ela e com os brancos dominadores.
A presença dos índios nas representações oficiais representa, de fato, um capítulo à parte nesta história. Impossibilitado, pela escravidão negra, de vender a imagem de “harmonia racial” (como ainda hoje se tenta fazer no Brasil com a igualdade), o discurso oficial procurou estimular uma literatura nacional romântica, porém autônoma, sob os moldes do indigenismo. O intuito era o de criar um passado e buscar continuidades temporais e uma antiguidade para a jovem nação, o que significava um retorno ao “bom selvagem” de Rosseau. Sabia-se muito pouco sobre os indígenas, mas na literatura fervilhavam os romances épicos que traziam indígenas heróicos, semi-nus, em amores silvestres com a floresta virgem como paisagem. Cenário ideal para vender cerveja se houvesse alguma fábrica na época. Estas imagens seriam recorrentes e para isto o quase europeu D.Pedro II contribuiria, distribuindo imagens oficiais onde apareceria ladeado de indígenas, flores e árvores tropicais, além de ramos de café e tabaco, alguns dos principais produtos exportados pelo Brasil na época.
Assim a literatura e as demais artes cederam espaço para o discurso oficial e palaciano. Assim como as garotas são usadas para vender cerveja, a natureza exuberante e o indígena transformado em modelo nobre foram usados, tomando parte, mesmo como perdedores, ou em posição inferior, na gênese do Império. Transformado em uma monarquia dos justos, o Império aparece como contraposto à colonização portuguesa, que passou a ser vista como terreno da desigualdade, ainda que questões básicas como a devastação da natureza, a escravidão e o extermínio da própria população nativa fossem as mesmas nos dois períodos. Os temas eram nacionais, mas a cultura, em vez de popular, era palaciana e voltada para uma estetização da natureza local e de uma idealização da população nativa.
Com isto, percebe-se que a elite política e intelectual dirigente do Império foi suficientemente competente para construir uma imagem e um discurso para o país, sustentar uma estrutura política estável e preservar a unidade de um enorme território, em alguns casos a ferro e a fogo, porém sua capacidade para dirigir, aperfeiçoar ou transformar as relações de produção e sociais no país real foi muito inferior. A natureza era bela, mas distante e pouco conservada. O índio era nobre, mas invisível. A capacidade de intervenção do governo imperial, mesmo com os enormes poderes que Pedro II dispunha era limitada, quando confrontada com os interesses privados, principalmente rurais. Por isto, mesmo que esta elite estivesse unida no combate da economia predatória da natureza, ou no resgate social da população indígena, o que evidentemente não estava, é bem provável que sua capacidade de deter a destruição natural ou a degradação social fosse restrita. Na prática a devastação, profundamente arraigada na sociedade escravista, continuou sendo a fonte de renda que sustentou a elite econômica e a máquina do Estado brasileiro, independente da bela e confortadora imagem de harmonia natural e racial que os artistas românticos, financiados pelo Estado, passavam para a população.


Após consolidar esta imagem naturalística romantizada no país, o Império, capitaneado pelo próprio D. Pedro II passou a participar, com entusiasmo, das imponentes exposições internacionais que aconteciam na Europa e nos Estados Unidos. Nestas exposições começou-se a difundir a imagem de um enorme país exótico, com natureza exuberante e selvagem e com habitantes (indígenas) belos, nobres e liberais na sua nudez. Esta imagem oficial e estereotipada persiste. O Brasil segue sendo o local onde se encontra a maior e mais espetacular floresta do mundo, é um campeão da biodiversidade e da exportação de produtos do agronegócio e a liberalidade nas praias e no carnaval seguem sendo o chamariz preferencial para atrair os turistas (inclusive o turista sexual) para férias no país. Bem e quanto aos indígenas, após cumprirem este papel, em grande parte desapareceram, inclusive dos romances...
Edson Struminski
edson_struminski@yahoo.com.br


4 comentários:

  1. Pontos análogos de um Brasil colonizado.

    ResponderExcluir
  2. Nesta sociedade o indígena é dispensável... mas não a cerveja!
    Indígena só serve para capa da National Geographic Magazine.

    ResponderExcluir
  3. "Quem me dera
    Ao menos uma vez
    Fazer com que o mundo
    Saiba que seu nome
    Está em tudo e mesmo assim
    Ninguém lhe diz
    Ao menos, obrigado."

    É mais ou menos isso.

    ResponderExcluir
  4. sim sim sim a rede globo é o canal mais digno da tv brasileira, vc é menoria e vai continuar sendo

    ResponderExcluir