Ensaio : Texto literário breve , entre o poético e o didático , expondo idéias , críticas e reflexões morais e/ou filosóficas acerca de certo tema. Defesa de um ponto de vista pessoal e subjetivo sobre um tema , sem que se paute em formalidades como documentos ou provas empíricas ou dedutivas.
Manifesto : Declaração publica de razões que justifiquem certos atos ou fundamentos. Ato de manifestar um desejo , atitude ou repúdio.

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sábado, 9 de abril de 2011

O Brasil , a Cerveja , a Natureza e o Império ...



Por : Edson Struminski

As imagens são recorrentes: propaganda de cerveja mostra sempre lindas mulheres em roupas sumárias em alguma praia paradisíaca. Embora pareça estranho e paradoxal, a origem deste estereotipo brasileiro feminino pode estar em um período altamente conservador pelo qual o país passou, o período imperial e tem a ver com nossa natureza exuberante, índios, desmatamentos, etc...
O Império brasileiro é certamente uma instituição singular na geografia política da América e um momento único na história brasileira. Hoje temos que reconhecer, claro, que seu conservadorismo contribuiu para que o país mantivesse o sentido de nação e com a unidade do seu território, relativamente pouco afetado por guerras e revoluções desagregantes (como aconteceu na América espanhola). Da transição do período colonial português para o imperial brasileiro, mantiveram-se estruturas de governo funcionais, algumas instituições científicas e técnicas criadas durante a permanência de D.João VI no Brasil, portos abertos para o mundo, algumas experiências modernizadoras (reflexos da Revolução Industrial mundial), mas principalmente um espaço físico ainda desocupado pela civilização portuguesa e subexplorado e, portanto, passível de experiências civilizatórias e de elaboração de discursos pelos brasileiros, finalmente “donos” do seu país. Claro que, no final, seria este mesmo conservadorismo que acabaria decretando o fim do império, embora este seja tema de outro artigo.
O império aconteceu no Brasil, então, pelo entendimento da elite brasileira da época de que a monarquia aparecia como o único sistema capaz de assegurar a unidade do vasto território brasileiro e impedir o fantasma do desmembramento vivido pelas ex-colônias espanholas vizinhas e que já andava por aqui. Com isto, as representações simbólicas do poder imperial evocavam elementos de longa duração, como justiça, paz e equilíbrio, provenientes da longa tradição monárquica européia, o que de certa forma ressaltava a homogeneidade da elite política brasileira que detinha o poder na época, basicamente educada em Portugal, nos moldes da realeza e com poucos pendores para aventuras republicanas.




É efetivamente no regime monárquico que se forjou no Rio de Janeiro, então capital política, econômica e cultural do país, um padrão de comportamento mais moderno que moldaria o país no século XIX e se mantém, em muitos aspectos, até hoje. Além do Rio, situado estrategicamente no meio do país, o que impediu um maior distanciamento das províncias do centro do poder, as metrópoles regionais Recife e Salvador formariam a tríade de cidades portuárias que difundiriam a modernidade oitocentista no Império. Esta modernidade até estava calcada em um liberalismo menos conservador e produziria uma crítica social constante e ferina durante todo Império e que em raras ocasiões seria reprimida, mas seria uma modernidade urbana, restrita a estas cidades.
No entanto, mais do que se incomodar com eventuais críticas, o governo imperial estaria preocupado em forjar uma identidade própria para o país dentro do concerto de nações. Para isto seria necessário criar um discurso unificador que unisse a tradição da monarquia aos atributos naturais brasileiros.
Diante da busca por um discurso que representasse o país, o romantismo surgiu para os intelectuais comprometidos com a causa brasileira como o gênero capaz de exprimir, de forma original, as singularidades da nação. Assim, em 1836, um grupo de jovens brasileiros residentes em Paris fundou a revista Niterói, que apesar da vida curta, pode ser considerada o marco do romantismo brasileiro. A revista buscava a exaltação das originalidades brasileiras, fazendo com que o romantismo viesse de encontro ao desejo de manifestar na literatura uma especificidade do jovem país, em oposição aos cânones legados pela pátria-mãe ou pelos demais países europeus.
Enquanto isto, no Brasil, acontecia a descoberta do país pelos próprios brasileiros. Os altos funcionários imperiais começaram a apoiar a investigação científica sobre os recursos naturais do país e incentivaram a criação de novas instituições científicas, retomando a proposta do articulista da independência José Bonifácio de Andrada e Silva. Estas instituições materializaram o discurso científico cartesiano, na forma da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional (SAIN) em 1827, do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) em 1838 (ano da morte de José Bonifácio), do Núcleo Imperial de Horticultura Brasileira em 1849 e da Sociedade Vellosiana em 1851, entre outras. Os membros destas sociedades, naturalistas e técnicos, viajados e instruídos, expressavam o temor quanto ao dano ambiental pela intensificação da atividade econômica e pelo adensamento populacional e estariam fadados a enfrentar questões ambientais e de conservação da natureza.



Em, 1840, porém, a unidade do país estava ameaçada por revoltas internas e pela ausência de um verdadeiro monarca no poder, pois Pedro I voltara para Portugal e Pedro II era muito jovem. Aos 15 anos de idade ele acabaria sendo declarado maior de idade para poder assumir o poder e apaziguar o país. Apesar da juventude, Pedro II acabaria fazendo uso freqüente do poder moderador conferido pela constituição do país à sua pessoa, para decidir, como verdadeiro monarca absolutista, os destinos da nação.
Com a entrada de D.Pedro II no IHGB e seu mecenato, o romantismo brasileiro se transformaria em projeto oficial, em verdadeiro nacionalismo e como tal passaria a inventariar o que seriam as tais originalidades locais, representando o país segundo os interesses do Estado. Os intelectuais de formação cartesiana do instituto representariam de fato elementos essenciais para a construção, inclusive simbólica, da ordem nacional e de uma ponte para o relacionamento direto entre os intelectuais e o poder, mas o romantismo no Brasil, seria muito mais do que uma mera reação aos excessos materialistas e racionalistas do pensamento cartesiano, como algumas vezes se comenta. Ele seria uma ideologia de estado.



 Assim, a crítica ambiental brasileira do período acabou tendo muito pouca influência do naturalismo romântico, este movimento não pode de forma alguma ser desprezado, pois o mesmo não pode ser dito da cultura oficial, responsável pela construção de uma identidade que pudesse ser identificada como nacional. A natureza brasileira cumpriu função importante no período romântico. Sem castelos medievais, templos romanos antigos e poucas batalhas heróicas para relembrar, sobravam o maior dos rios, a mais bela vegetação, cachoeiras gigantescas e árvores enormes, além, é claro, dos seus habitantes nativos, originalmente (como mostra a carta do descobrimento de Pero Vaz de Caminha) tão receptivos e liberais na sua pureza original. Assim, é entre palmeiras, abacaxis e aves silvestres, que apareceriam caracterizados o monarca ou a nação, tanto em técnicas tradicionais como na pintura como em inovadoras como na fotografia, da qual Pedro II foi entusiasta. Os índios atuavam como nobres no exuberante cenário da floresta brasileira e em total harmonia com ela e com os brancos dominadores.
A presença dos índios nas representações oficiais representa, de fato, um capítulo à parte nesta história. Impossibilitado, pela escravidão negra, de vender a imagem de “harmonia racial” (como ainda hoje se tenta fazer no Brasil com a igualdade), o discurso oficial procurou estimular uma literatura nacional romântica, porém autônoma, sob os moldes do indigenismo. O intuito era o de criar um passado e buscar continuidades temporais e uma antiguidade para a jovem nação, o que significava um retorno ao “bom selvagem” de Rosseau. Sabia-se muito pouco sobre os indígenas, mas na literatura fervilhavam os romances épicos que traziam indígenas heróicos, semi-nus, em amores silvestres com a floresta virgem como paisagem. Cenário ideal para vender cerveja se houvesse alguma fábrica na época. Estas imagens seriam recorrentes e para isto o quase europeu D.Pedro II contribuiria, distribuindo imagens oficiais onde apareceria ladeado de indígenas, flores e árvores tropicais, além de ramos de café e tabaco, alguns dos principais produtos exportados pelo Brasil na época.
Assim a literatura e as demais artes cederam espaço para o discurso oficial e palaciano. Assim como as garotas são usadas para vender cerveja, a natureza exuberante e o indígena transformado em modelo nobre foram usados, tomando parte, mesmo como perdedores, ou em posição inferior, na gênese do Império. Transformado em uma monarquia dos justos, o Império aparece como contraposto à colonização portuguesa, que passou a ser vista como terreno da desigualdade, ainda que questões básicas como a devastação da natureza, a escravidão e o extermínio da própria população nativa fossem as mesmas nos dois períodos. Os temas eram nacionais, mas a cultura, em vez de popular, era palaciana e voltada para uma estetização da natureza local e de uma idealização da população nativa.
Com isto, percebe-se que a elite política e intelectual dirigente do Império foi suficientemente competente para construir uma imagem e um discurso para o país, sustentar uma estrutura política estável e preservar a unidade de um enorme território, em alguns casos a ferro e a fogo, porém sua capacidade para dirigir, aperfeiçoar ou transformar as relações de produção e sociais no país real foi muito inferior. A natureza era bela, mas distante e pouco conservada. O índio era nobre, mas invisível. A capacidade de intervenção do governo imperial, mesmo com os enormes poderes que Pedro II dispunha era limitada, quando confrontada com os interesses privados, principalmente rurais. Por isto, mesmo que esta elite estivesse unida no combate da economia predatória da natureza, ou no resgate social da população indígena, o que evidentemente não estava, é bem provável que sua capacidade de deter a destruição natural ou a degradação social fosse restrita. Na prática a devastação, profundamente arraigada na sociedade escravista, continuou sendo a fonte de renda que sustentou a elite econômica e a máquina do Estado brasileiro, independente da bela e confortadora imagem de harmonia natural e racial que os artistas românticos, financiados pelo Estado, passavam para a população.


Após consolidar esta imagem naturalística romantizada no país, o Império, capitaneado pelo próprio D. Pedro II passou a participar, com entusiasmo, das imponentes exposições internacionais que aconteciam na Europa e nos Estados Unidos. Nestas exposições começou-se a difundir a imagem de um enorme país exótico, com natureza exuberante e selvagem e com habitantes (indígenas) belos, nobres e liberais na sua nudez. Esta imagem oficial e estereotipada persiste. O Brasil segue sendo o local onde se encontra a maior e mais espetacular floresta do mundo, é um campeão da biodiversidade e da exportação de produtos do agronegócio e a liberalidade nas praias e no carnaval seguem sendo o chamariz preferencial para atrair os turistas (inclusive o turista sexual) para férias no país. Bem e quanto aos indígenas, após cumprirem este papel, em grande parte desapareceram, inclusive dos romances...
Edson Struminski
edson_struminski@yahoo.com.br


quinta-feira, 7 de abril de 2011

Mafalda e Lisa Simpson : Gêmeas siamesas


Por : Lord Vader

A despeito de nascerem separadas cronologicamente por 25 anos,  à uma distância de quase dez mil kilometros uma da outra , e, é claro, isoladas pelo imenso istmo sócio-cultural que as rechaçam ainda um pouco mais : uma bela morena Argentina dos anos de chumbo e uma Loira norte americana nascida na era Reagan , Mafalda e Lisa Simpson nada mais são do que irmãs gêmeas , espíritos-livres dotadas da mesma essência crítica , resultados da visão de dois cartunistas brilhantes , e cada uma delas um retrato de seu tempo. Clones conceituais separados no nascimento.
É bem verdade que Mafalda é a Lisa Simpson original. Uma adorável menina de 6 anos , que é sem dúvida a coisa mais sensacional a surgir na terra de nossos, ora prezados , ora desafetos, hermanos do sul . Mafalda é uma menina talentosa , agraciada com um senso crítico e uma visão de mundo muito acima do esperado para uma criança de bairro . Basicamente é uma adulta aprisionada em um corpo infantil. Uma humanista , livre-pensadora , que representava nada menos do que o arquétipo do liberal de esquerda tão comum en sudamerica , numa época ligeiramente anterior ao controle de seus morféticos generais , quando certamente não poderia mais ser publicada em hipótese alguma.



Na verdade existe uma semelhança mais ampla entre as duas , não apenas em termos sociais (ambas saídas de famílias de classe média baixa) , mas também em relação ao próprio núcleo familiar em si.
Embora seu pai ("Pápá") não seja o troglodita boçal que é Homer Simpson (uma violenta sátira ao americano médio e suas efêmeras aspirações) , sua mãe ("Mamã") , assim como Margie Simpson, é uma dona-de casa que não concluiu os seus estudos , e por isso é vista de maneira ressentida por Mafalda, (exatamente como Lisa , que vê sua mãe da mesma forma neste aspecto), e com a qual entra em conflito quando ela prepara sopas e macarrão (a restrição alimentar de Lisa é ser vegetariana).
As duas possuem irmãzinhas menores que são igualmente brilhantes e talentosas , já nos primeiros anos. Gui já começa a formar sua visão de mundo enquanto Maggie é um prodígio com QI de três dígitos !
Mafalda surgiu em 1962 numa campanha publicitária para o jornal portenho Clarin , e se tornaria um cartoon apenas dois anos depois , pela sugestão  de um amigo de Quino , seu genial criador. As tiras foram publicadas até 1973 , uma vez que depois disso já não havia mais ambiente político para a coisa continuar
na terra de Gardel, assolada por uma brutal ditadura militar. Posteriormente, Quino ainda desenharia Mafalda em algumas ocasiões , sobretudo para promover campanhas Humanitárias . Em Buenos Aires , o amor pela menina lhe garantiu uma praça com o seu nome .

Obviamente não há porque se pensar em plágio , mas certamente em referências . Matt Groenning , o criador dos Simpsons , é por sua vez também um pequeno gênio , figura sagaz e relutante que se utiliza das benesses do sistema para atacá-lo (ficou trilhardário às custas do império do mal Fox). É um dos poucos fiéis de balança na terra do hamburguer com fritas , e sua pegada ácida escancarou a porta para dezenas de outros cartoons anti americanos que surgiram na sua cola. Certamente Groenning conhecia a obra de Quino , sendo o sujeito meticuloso que é , extremamente culto e, ao contrário do americano médio, interessado na produção cultural realizada fora da lingua de William Shakespeare . Enfim , numa comparação superficial e ligeira, Mafalda é uma linda morena , de sangue latino , cujas preocupações eram a guerra fria , os meninos de rua , o contexto político mundial , e mesmo ciente de que a era hippie já havia passado , alimentava fantasias de transformações não apenas em sua anêmica república subdesenvolvida , mas também de paz mundial , sendo o seu projeto maior crescer e trabalhar como tradutora na ONU e contribuir com o este processo.



Já Lisa Simpson , mesmo com um forte sentimento idealista, possui uma visão levemente pessimista do mundo , em parte por conta de seu forte pragmatismo e racionalismo cartesiano , em parte pelos sinais dos tempos . O sonho acabou já há tanto tempo ... Ainda assim é vegetariana , luta pelos direitos dos animais , teme o aquecimento global acima de tudo. É uma grande fã de Jazz (Mafalda ama os Beatles , por suposto )e se esforça para manter sua aura cult . Ateísta e intelectual sofre secretamente por sua inadequação, e nada mais é do que um divertido arquétipo do intelectual americano, marginalizado pelo senso comum (me lembro aqui da máxima do mestre Frank Zappa : " Nesse país os intelectuais nunca ganham uma chupada , então eu prefiro tocar guitarra do que escrever") . Seu maior objetivo é ingressar em uma universidade prestigiosa , se graduar com louvores , casar-se com um rapaz judeu (muito embora seu forte traço feminista já tenha levantado sutis questionamentos sobre a sua sexualidade) e finalmente , se libertar do pesadelo suburbano em que está aprisionada , de sua família disfuncional , e sobretudo de seu pai portador de problemas mentais (Lisa vive um conflito de ambivalência muito forte com o seu pai).
Lisa e Mafalda, duas formidáveis iconoclastas ,mulheres assim tão fortes, mas ao mesmo tempo essas meninas encantadoras que tanto amo, talvez tenham um primo cruzado mais novo, com quem compartilham algumas características : Calvin . Mas isso já é assunto para outra postagem ...

Lord Vader



sábado, 2 de abril de 2011

O Espírito do Espiritismo





Por : Lord Vader

Dentre tantas crenças e convicções filosófico - religiosas que povoam o imaginário coletivo , uma em particular me deixa bastante perplexo em relação tanto aos seus princípios como quanto a seus seguidores : a crença nos espíritos , e sua idéia central de que estes seres são almas de pessoas mortas que exercem sobre aquele que crê uma influência invisível, mas poderosa , podendo inclusive se apossar dos vivos e das coisas que os cercam. Sabidamente esta é uma crendice universal que acompanha o ser humano ao longo da história , difundida desde povos profundamente primitivos, até os povos tidos como civilizados do ocidente , pretensamente esclarecidos e até intelectualizados, que alimentam esta crença metafísica tão impregnada na cultura das massas, aparentemente vivendo satisfeitas em seus próprios castelos de superstição.

A despeito da força das correntes filosóficas materialistas , e até mesmo do escárnio público , essa crença segue inabalável entre um imenso número de adeptos que utilizam a fábula dos espíritos como uma defesa pessoal contra suas emoções mal controladas , ou mesmo a favor da infantil não aceitação da própria e inegável finitude e degeneração. O espiritismo é uma orgia necrofílica que arranca seus seguidores dos laços
com o mundo tangível e material, e os coloca na trincheira entre dois universos existênciais : para eles a realidade física é, ao mesmo tempo, um mundo povoado de espíritos. Neste aspecto , consegue ser ainda mais decadente do que o próprio cristianismo, detentores do ressurecionismo por excelência.

O espiritismo é, antes de tudo, uma proteção contra a má vontade dos mortos. Uma manifestação histérica herdada dos povos mais primitivos e das instâncias mais arcaicas da mente humana , pois data de tempos imemoriais a oferta de agrados nos túmulos de ancestrais, hábito enraizado em tantas culturas antigas ou
pouco evoluídas. Configura-se porém em nossos dias num ritual de caráter delirante, alucinatório e catatônico.



O espiritismo nada mais é do que a realização dos complexos inconscientes de seus praticantes , pois é justamente nas idéias delirantes que mais claramente vêm à tona o obscuro e o secreto de cada um. Os espíritos são fruto de fantasias patológicas ou idéias desconhecidas perdidas no inconsciente dos crentes , sejam estas idéias boas ou más. Acredito francamente que a maioria das idéias projetadas são positivas visto que os praticantes do espiritismo são, ao menos na grande parte que conheço, pessoas afins de fortes princípios éticos , que encontram nesta religião, antes de mais nada ,uma excelente oportunidade para aliviarem o inevitável mal estar de possuírem mais do que precisam para viver bem , o que, no final das contas, não seria uma coisa ruim , no sentido estritamente pragmático , visto que estas pessoas usam a religião também como filantropia.

Seus sacerdotes , durante seus acessos histéricos (simulados ?) distribuem suas próprias perturbações mentais às pessoas que estão à sua volta à procura da orientação dos ditos espíritos manifestados através do médium , sem perceberem que estão sendo vítimas de uma estúpida ilusão . Esses espíritos não passam de meros complexos que eclodem do inconsciente do médium , e aparecem sob a forma de uma projeção simulada . Exatamente o mesmo processo milenar dos cultos animistas e xamãnicos , ainda praticado nas religiões africanas e demais ritos bárbaros (no sentido de pouco esclarecidos), que obviamente representam
grande parte da tradição mitológica ancestral. Entretanto , em nossos dias , o espiritismo se apresenta servido sob uma roupagem pseudo científica , etérea e intelectualizada, sempre à procura de quem os considere.

Por outro lado, pode ser apresentada também como encantador exercício de antropologia (o que de fato é) e integração cultural, no caso do espiritismo dito de baixa roda , ambos faces diferentes da mesma moeda (porém os segundos praticantes são de um modo geral severamente discriminados pelos pretensamente caridosos primeiros).
A atmosfera primitiva em que surgiu pela primeira vez a palavra "espírito" ainda sobrevive inegávelmente na humanidade , mesmo que em um nível situado abaixo da consciência. Mas, como nos mostra o espiritismo moderno, não é preciso muita coisa para trazer à tona esta parcela na mentalidade naqueles que não se valem totalmente do julgamento do intelecto frente ao emocional. Parece que basta apenas ser necessário acreditar.





Lord Vader
ensaiosemanifestos@hotmail.com

A Descoberta Biológica do Brasil

 


Por : Edson Struminski

A descoberta de um novo mundo habitado por povos e por uma natureza então desconhecidos foi o fato mais extraordinário e decisivo da história moderna ocidental. Este fato desencadeou uma vasta elaboração de discursos e visões sobre esta nova natureza descoberta.
A carta de Pero Vaz de Caminha, cronista da descoberta portuguesa do Brasil, ao rei D. Manuel costuma ser considerada o primeiro documento literário sobre o Brasil. Caminha era um letrado, de formação humanista, assim ele se mostra muito mais interessado em descrever os povos indígenas e seus costumes que a natureza, o ambiente e os recursos do mundo que via, algo que eventualmente até teria até mais interesse para a Coroa portuguesa. Mesmo assim é no documento de Caminha que aparecem os primeiros registros de aves, peixes, repteis e também uma descrição, no mínimo acertada da nova terra. “Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande, porque, a estender olhos, não podíamos ver senão terra com arvoredos, que nos parecia muito longa”.

Do levantamento que Cândido de Mello Leitão, elaborou em 1937, da história da biologia no Brasil , podemos constatar que esta ciência estava em estágio embrionário nos anos 500. Assim, o que tivemos no Brasil, por certo tempo, foram cronistas, mais ou menos espantados com a natureza brasileira, mas que se limitaram a descrever animais e plantas vistos de passagem pelo país. É o caso de Caminha e também de Américo Vespúcio, Francisco Pigafetta (cronista da viagem de Fernão de Magalhães), do espanhol Cabeza de Vaca e de Ulrich Schmidel e Hans Staden, alemães que chegaram a viver alguns anos no Brasil.
Mas existem exceções.  Mello Leitão considera o jesuíta José de Anchieta o fundador da história natural do Brasil. É de 1560 uma epístola de Anchieta que descreve, ainda com uma certa dose de fantasia, a flora e a fauna brasileira. Mas ele segue um método, o método quinhentista, que classifica a fauna em “aquáticos, terrestres e aéreos”. Anchieta refere-se, desta forma, a 25 animais, que vão de grandes mamíferos a invertebrados, incluindo, ainda, sete espécies de serpentes, a respeito das quais descreve sintomas de envenenamento e tratamentos, além de diversos mamíferos que eram usados, então, para alimentação pelos indígenas.




Na parte botânica da sua epístola, também segundo o molde quinhentista, Anchieta descreve “plantas alimentícias” entre as quais raízes e frutos ainda hoje utilizados no Brasil como a mandioca ou o caju e medicinais, incluindo aí seu uso pelos indígenas. Anchieta realiza assim, com sua descrição de plantas e animais, juntamente com seu uso humano, um primórdio do que hoje entenderíamos por etnofauna e etnobotânica.
Mello Leitão prossegue descrevendo a “História da Província de Santa Cruz”, do português Pero de Magalhães Gandavo, que ele considera inferior ao trabalho de Anchieta, mas que ainda assim acrescenta novidades em um capítulo sobre avifauna, onde descreve animais vistosos como gaviões e papagaios.
Do franciscano francês André Thevet, tem-se novamente o relato, sem método, dos viajantes da época. Os franceses tiveram uma curta aventura colonialista no Brasil e Thevet vem falar das “singularidades” desta França Antartica, entretanto é um apanhado inferior ao de Anchieta, muito embora sempre apareçam descrições de novas espécies. Do mesmo modo é o trabalho de Jean de Lery, que afirmou viver com os Tupinambás por quase um ano e foi rival de Thevet, a quem contestou em seus escritos. Ele descreve “animais, caça, grandes lagartos e outros seres monstruosos da América” e aves “boas de comer” e outras de plumagens belas, tão apreciadas na Europa na época, mas segundo Mello Leitão, seu trabalho é inferior aos de seus antecessores. Lery demonstra conhecer umas vinte plantas, entre as quais o fumo e o pau-brasil (Caesalpinia echinata), esta última a árvore que seria o primeiro “produto de exportação”, na verdade contrabando, da nova nação.





Novamente é a partir de outro jesuíta, Fernão Cardim, que entre 1583 e 93 esteve no Brasil que surge a produção de um documento de valor sobre a biologia brasileira em “Do clima e Terra do Brasil”. Neste documento surge uma lista mais completa de mamíferos e uma descrição mais completa dos animais, que a dos antecessores. Da mesma forma, a descrição botânica de Cardim é mais completa, com dez capítulos onde aparecem árvores que dão fruto, outras medicinais, as que dão óleo ou madeira, as ervas comestíveis e medicinais, além de canas (bambusáceas) e as espécies de mangue.
Com Gabriel Soares de Souza surge uma interessante novidade. Vindo ao Brasil em 1567 para tornar-se senhor de engenho, Soares de Souza fixa-se na região nordeste do país, ao contrário dos cronistas anteriores, que escreveram sobre a natureza do sul e sudeste brasileiro. Escreve um “Tratado descritivo do Brasil”, com cinqüenta e nove capítulos para animais e quarenta e um para plantas. Embora seu livro misture, segundo Mello Leitão, observações judiciosas com lendas e confusões, ainda assim considera seu livro como mais um dos marcos confiáveis sobre o estudo biológico no Brasil.
Warren Dean , considera que os esboços e relatos produzidos no século XVI no Brasil eram esforços amadores e que o interesse da Metrópole pela vegetação e pela vida animal da colônia era limitado. Segundo ele, os colonizadores preferiram ignorar as espécies nativas e efetuar transferências bióticas já conhecidas por eles para o Brasil a partir de regiões semi-tropicais européias, ou de regiões tropicais de suas colônias asiáticas ou africanas. Este fato é real e mesmo hoje, a base da agropecuária brasileira é feita a partir destas espécies introduzidas. Mas a análise de Dean não é totalmente correta.
Certamente o intento português de conquistar e transformar o novo território se evidenciaria no pragmatismo das relações dos colonizadores com o novo ambiente. Em um primeiro momento, o desprezo ou escravização da população nativa e destruição dos ecossistemas naturais seria realizado para viabilizar a implantação da monocultura do açúcar.



Mas para sermos justos com os portugueses, da leitura de Mello Leitão percebe-se que entre os europeus, foram na verdade, os letrados deste país, religiosos ou leigos, que produziram os conhecimentos mais interessantes, do ponto de vista biológico, da natureza do Brasil nos anos 500. Eles utilizaram as ferramentas de produção de conhecimento, que incluía a classificação de animais e plantas, compatíveis com o status científico europeu da época. Possivelmente estes cronistas descreveram inclusive as primeiras espécies extintas no Brasil por conta da exploração predatória dos colonizadores.
De qualquer modo, o conhecimento biológico levantado por portugueses teve destino diferente daquele produzido por outros europeus que estiveram no Brasil, o que mostra, de fato, um descaso com o trabalho destes primeiros cronistas. Enquanto alemães e franceses publicavam, sem maiores dificuldades, seus relatos de viagens e observações, portugueses tinham seus originais desprezados ou roubados. Anchieta só foi publicado em 1799, Gabriel Soares de Souza em 1825 e Fernão Cardim teve seus escritos tomados pelo corsário Francis Cook que o aprisionou em uma viagem a Portugal e vendeu seus escritos, que foram publicados por Samuel Purchas, na Inglaterra, em 1625.


Edson Struminski
edson_struminski@yahoo.com