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segunda-feira, 7 de março de 2011

O Poeta Multiface




Por : Mateus André

Revolucionário, sim , essa palavra é cabível na classificação do grande poeta Fernando Pessoa, assim como inclassificável, louco , dentre outras nomenclaturas usadas pela critica literária.
Como todos os grandes escritores estiveram a frente de seu tempo, conseguiram e conseguem enxergar, além de seu mundo, pontos que também são perceptíveis a diversos artistas, filósofos e cientistas.
Fernando Pessoa, que trabalhou a literatura tanto na prática quanto na teoria, em seu texto “Dividiu Aristóteles a poesia em lírica, elegíaca, épica e dramática” que aponta elementos que provam que a teoria literária precisa de uma renovação, uma revolução, assim como a ideia de Aristóteles em dividir a poesia em lírica, elegíaca, épica e dramática. Pessoa quebra esse paradigma, ele prova que a literatura não deve seguir um foco, e muito menos regras, e na arte o que verdadeiramente é uma regra? Ela existe? Deve se seguida?
É apontada, também, a questão da junção de estilos, que se perfaz em um texto literário, não quer dizer que uma epopéia lírica por exemplo não contenham elementos dramáticos, ou elementos épicos, sendo que cada escrita é a manifestação do autor, através de suas palavras, onde o escritor não segue uma linearidade de acontecimentos ou fatos, pois o texto em si conduz o autor a caminhar, não existe um texto pré-formado.

Com a questão da multiplicidade de ideias e opiniões que formam o escritor, não deixará de colocá-los no papel, entra também a questão do criar novas faces, novos rostos, a inovação na escrita, mas para que conceba essa inovação é necessário não abandonar a tradição, é seguir na escrita mesmo de maneiras opostas do que o próprio escritor defende, pois a obra literária é constituída pela tríade: autor, obra e leitor, sendo que um depende do outro, não sendo possível a existência sem esses fatores atrelados.


O que provoca a busca dessa nova concepção é a ideia de personificação, um dos passos para se alcançar é o não egoísmo, onde todas as ideias são postas em mesa para que o próprio poeta escolha, ele experimente, e que a cada processo de uso torne-se para o próprio autor como um desafio, sim, o autor é um experimentador. Comparando com um químico em sua bancada encontra-se diversos produtos e infinitas combinações, e isso que o poeta faz, ele usa as palavras como matéria prima, para construção de sua obra.
Pessoa, cria suas próprias pessoas, seus heterônimos, onde cada um segue uma maneira de escrever, sendo que não abandona a base, a tradição, pois a tradição é o próprio Fernando Pessoa, o escritor o humano. E por trás desses heterônimos ele, apresenta ideias e convicções que as vezes são totalmente contrárias que sua crença, como o poema VIII do livro “Guardador de rebanhos” de Alberto Caeiro, onde há uma grande crítica perante a religiosidade, levantando também questões filosóficas, o próprio autor admite que não é o que prega, ele tem um forte vínculo com o espiritualismo, aconteceu a contradição, pois o recurso de despersonalização é utilizado, o poeta não é único, não é utilizado a sua unicidade, e sim a pluralidade.
Assim como propõe Fernando Pessoa, no poema “Autopsicografia”: O poeta é um fingidor./Finge tão completamente/Que chega a fingir que é dor/A dor que deveras sente. A metalinguagem é bastante presente nas obras de Pessoa, pois ele mostra também em seus escritos o lado humano do escritor, ele fala que ele realmente existe, e seus heterônimos só existem na ficção, e acontece que o poeta finge tão bem que se aproxima da realidade, uma realidade que às vezes é distorcida em textos não literários.
Seguindo o conceito do autor em seu texto, ele defende a pluralidade do poeta, propõe que devemos renovar a cada dia que passa sempre buscando o futuro.
Um dos grandes escritores nacionais que seguiram esse conceito foi Machado de Assis, em suas obras como “Memorial de Aires” é classificado como um romance histórico, um diário, autobiografia. O próprio Machado cria seu alterego o seu outro eu, que no caso é Aires que se dá também o nome do romance. Por outro lado escreveu um conto “As academias de Sião” a história de um jovem rei Kalaphangko e uma concubina Kinnara, eles trocam de corpos experimentam sensações e aventuras em corpos opostos, o conto se aproxima bastante dos contos fantásticos árabes, entra a questão das múltiplas faces do escritor, Machado de Assis não se encaixa em nenhuma escola literária, mas sim ele criou o seu próprio estilo.
Assim como as obras de Fernando Pessoa atualmente vem ganhando espaços distintos, classificadas como frases motivacionais, “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”, fica gravado na mente de quem fala e de quem ouve, mas às vezes esquece que essa frase é proveniente de um texto literário, o poema “Mar português”, esquece a sua fonte, alterando a semântica proposta em todo o poema, um dos fatores que a personificação contribui, o texto alcança dimensões que o próprio autor não é capas de controlar, pois o texto não é escrito para ele e sim para o infinito público.


Mateus André Felipe
mateusdre@hotmail.com

Um comentário:

  1. Contemplativo sobre as suas multifacetadas personagens interiores, dessacralizou a lucidez de uma certa loucura aos olhos dos seus contemporâneos... e já não dos vindouros!

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