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segunda-feira, 14 de março de 2011

O Poder do Contágio





Por : Yvette Centeno

Os poemas falam uns com os outros, ou as imagens têm poder de contágio:
Podiam ser outros os exemplos, mas fiquemos com estes por serem recentes.
A obra poética de Paul Celan, traduzida para português, foi lida, estudada regularmente, e teve eco e resposta em alguns dos poetas portugueses e brasileiros que mais se interessaram por ela.
Celan, exilado na própria língua que escolheu para escrever, a língua alemã (sendo ele de nacionalidade romena) escolhe a língua dos assassinos da sua pátria, da sua gente, mesmo depois de já ter ido para França, tendo escapado à morte certa do campo de concentração onde fora internado em 1941 e vira tantos e tantos judeus serem sacrificados.
Suicida-se em Paris, em 1970, atirando-se ao Sena.
A interrogação e o desespero do silêncio que recebe como única resposta são o clima em que a sua poesia é produzida.
Cada poema um lamento, um queixume, uma trágica evocação da morte que arbitrária e cruel se abateu sobre um povo e uma raça.
Cada poema uma discussão em aberto com um Deus que, se existe, se fechou e se cala sobre o destino de uma humanidade que era, ao fim e ao cabo, a materialização de si mesmo, a  consciência de si que só por via do Homem ( Cristo, para os cristãos) podia ter adquirido. Esse Deus–primeiro, Jeová, fizera nos tempos primordiais um pacto com a sua criatura e o povo que a partir dela se constituiu, o povo de Israel.
A interrogação de Celan prende-se com a ruptura aparente desse pacto de respeito pela condição humana, seus direitos fundamentais, sendo o primeiro de todos o direito à existência - e que a guerra injusta tinha vindo quebrar sob o olhar complacente de uma divindade que preferia o silêncio a um gesto de comiseração.

A poesia de Celan é pois carregada dessa amargura de uma existência negada sem razão, as suas imagens têm a marca e a mancha da morte sem sentido, pois onde não há resposta para e sobre a vida ( a existência, do idivíduo ou de uma nação inteira)-resta apenas o suicídio como solução.
E isto apesar de ter sido, em França, reconhecido como poeta notável, vendo a sua obra publicada regularmente e obtendo, como tradutor para alemão das obras de Rimbaud, do teatro de Picasso, de René Char, de Henri Michaux e até de Pessoa, entre outros, um sucesso merecido.
Mas o sucesso não lhe dava a resposta às suas grandes interrogações, sobre o Tempo e o Ser de que Heidegger se fizera expoente máximo, com a obra do mesmo título.
Celan não se inscrevia, como diz José Gil, no tempo e no espaço que vivera e em que vivia : nesse Tempo, que não sentia como seu, integrando-se nele, a sua incomodidade era permanente, não lhe permitia sentir-se como parte e pertença, mas antes como corpo estranho, expulso, excluído, recusado.
Esse estranhamento é permanente no que escreve e não o deixará viver nem bem com os outros nem bem consigo mesmo e ainda menos com o deus da sua religião.
A perguntas sem resposta responde com a dôr permanente do existir.

A dôr da guerra, de que foi vítima inocente; a dôr de ter sobrevivido enquanto os outros morreram.
Cantará, para sempre, essa dôr e aquelas mortes.

Entrada De Violoncelos
“do lado de lá da dôr:

os poderes, dispostos
em contra-céus,
fazem rolar o indecifrável diante
de corredores de sobrevôo e acessos,

a
noite escalada
está cheia de ramagem pulmonar,

duas
nuvens de fogo sopradas
cavam no livro
aberto pelo ruído das têmporas,
vai nascendo a verdade,

doze vezes se acende
o além atingido por setas,

a mulher de sangue
negro bebe
o sémen do homem de sangue negro,

tudo é menos do que
é,
tudo é mais”.




Contrasta o realismo espacial, físico,  das imagens, com o tempo dos violoncelos, sendo a arte da música a arte do tempo por excelência; contrasta a dôr evocada com o livro de que vai nascendo a verdade ( o livro devia ser o da vida mas é na realidade o  da morte) e a maior violência surge no contraste do par de sangue negro (não são loiros arianos de olhos claros)  com um além que os ignora e que permite que sejam abolidos da existência.
A conclusão é terrível:
“tudo é menos do que / é / tudo é mais”.
A aparência ( o que é menos)  oculta tudo o que é mais ( a negação do direito à existência) e por ser um “mais” oculto se torna tão gravemente doloroso para quem o testemunhou.
A divindade, com o seu livro, com as suas doze velas que se acendem, é tragicamente posta em causa. A rosa, que em Dante é um dos seus símbolos fulgurantes, e em Rilke será imagem recorrente, será na poesia de Celan a flôr de espinho que se enterra, envenena e mata.

É a “rosa de ninguém” sendo ninguém o nada, o próprio deus do silêncio, do negro absoluto e do vazio onde não existe um dizer compassivo. É a rosa que, a existir, já chegou tarde, como no poema Cristal:

“Não busques nos meus lábios a tua boca,
nem diante do portão o forasteiro,
nem no olho a lágrima.

Sete noites mais alto muda o vermelho para vermelho,
sete corações mais fundo bate a mão à porta,
sete rosas mais tarde rumoreja a fonte”.

Ordenado em volta do número sete, o da criação, que devia figurar a vida, a imagem que ressalta é a da morte, a do tempo “mais tarde” – que é o tarde de mais.

Mas tudo isto vinha a propósito do contágio das imagens poéticas entre si, do arrastamento que a leitura de um ou mais poemas provoca noutros poetas, estabelecendo uma espécie de corrente de pensamento imagético, em diálogo aberto, emocional.
Um bom exemplo é o de um grande poeta brasileiro contemporâneo, Paulinho Assunção, leitor de Rilke, e sobretudo do mesmo Celan que a todos nós apaixonou à medida que a sua obra foi sendo estudada e conhecida:

Mazurca Para Dois Violoncelos

 aedos gregos gotejaram toda a noite
pela torneira da pia da cozinha. ao
gato,
dei o nome de milênios. chovia Rilke.
vento,
só o vento baixo, curto, sereno. e os
aedos,
longe dos livros, gotejaram toda a noite
pela torneira da pia da cozinha.

ah os poetas de nova iorque. se
ouvissem. se
percebessem o gota a gota dos aedos
pela torneira daquela pia, água
ininterrupta,
música dos primevos. augusto de campos
estelar de signo a signo, setenta e seis
anos
é o que dizem os calendários.

celan numa cela de vidro.
murilo
mendes
e o geômetra emílio moura. ah se os
poetas
de paris. ah se eles ouvissem. se
percebessem
o gota a gota dos aedos na penumbra.

Lisboa vem em sonhos. o tejo.
barcarola
camoniana com luscos-fuscos de
cesarini.
sou o olho da serpente. pulo de rã
dentro do lago.
augusto de campos estelar de signo a
signo,
setenta e seis anos é o que dizem os
calendários.

poetas: sem língua não há poema. dói
na língua
a negligência. sou o rubro das bruxas
queimadas.
chovia rilke. murilo mendes e o
geômetra emílio moura.

os aedos em seu trabalho. gota a gota,
longe
dos livros, gota a gota, pais dos livros.
chovia
na biblioteca o gotejar vindo da pia.
meu gato.
dei-lhe um nome: dei este nome
milênios.

o tempo cai à noite com as folhas dos
vasos
renovados. pouca água em cada dia,
um dedo
d’água para a samambaia. augusto de
campos
estelar de signo a signo, setenta e seis
anos
é o que dizem os calendários.

sou o que vim e não volto. o bicho rói e
rói
dentro do tempo. meu gato chamado
milênios.
chove rilke. o deserto. os beduínos.
poema
não é frase. é xadrez, lance de dados.

Yvette Centeno
yvettecenteno@gmail.com


Um comentário:

  1. Este tentar descortinar para além do nada sempre me cativou.
    É este "pacto de respeito pela condição humana" que nos leva a pensar sem falsos temores reverenciais...!
    Continuemos pois.

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