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domingo, 6 de março de 2011

O Padre Ateu




Por : Hélio Dehon

Muito antes dos pretensos deístas-iluministas responsáveis pela Revolução Francesa (Voltaire,Russeau,Montesquieu,etc), escreverem algo a respeito de Religião e igualdade entre as pessoas, muito antes dos criadores do comunismo (Marx e Engels) imaginarem uma sociedade desigual devido a alienação do trabalho, houve uma pessoa que inauguraria todo o movimento ateu-materialista-comunista que nossa sociedade moderna conhece. Jean Meslier nasceu e viveu na pequena vila de Etrépigny, França entre os anos de 1664 e 1729.Sem ao menos dispor de uma biblioteca ou ainda de grandes mestres (talvez um pouco de Cartesianismo) de filosofia ou de qualquer outra ciência pós medieval,Meslier discorreu abundantemente sobre os assuntos acima citados. Talvez Meslier tivesse apenas um atributo que lhe conferisse alguma visão religioso-antropológica,ele era PADRE,e não somente padre mas sacerdote responsável pele paróquia da vila em que habitava. Passou toda sua vida procedendo suas homilias para a comunidade, realizando suas missas regulares,captando confissões,pondo em prática os sacramentos e todos os rituais(um tanto quanto macabros e tanatofilicos que norteiam a religião católica), porém com o detalhe de estar se corroendo de culpa por dentro pois sabia que tudo aquilo que falava era o mais puro embuste, e de estar enganando todos aqueles pobres paroquianos que já sofriam a opressão de seus governantes. Mas porque não “saía do armário” ? Pelo simples fato de estar em pleno Séc 17 e isso significaria a sua própria morte! Então, ao se recolher toda noite escrevia aquilo que pensava,e escondia seus escritos, mesmo sabendo que esses escritos se encontrados postumamente , causariam tremendo escândalo na sociedade da época(como causaram),ocasionando a excomunhão do mesmo (o que ocorreu).O padre ateu cagou continuou escrevendo.Seu único medo era de que, como uma mensagem na garrafa no oceano, seus escritos jamais fossem encontrados,coisa que não aconteceu graças a ação dos nomes já citados (Voltaire,Russeau,Montesquieu), à pirataria e clandestinidade literária da época das luzes.
Seus conceitos eram simples e básicos sob a ótica ateu-materialista (pelo menos para os dias de hoje):

Deus - Uma ilusão ou quimera, fruto da imaginação do homem que não apenas o criou mas antropomorfizou-o,deixando-o com todas as suas características.Uma entidade má,vingativa que pune sua criação por motivos pífios como não guardar um dia santo.O céu ou paraíso, uma ilusão , utonia completa,de onde os cristãos almejavam para o pós morte deixando a vida terrena (REAL), a única na ótica do padre,de lado,vivendo na maioria das vezes de forma miserável  imaginando uma compensação futura.

Jesus - Um fanático e enganador,isso é , se é que existiu mesmo! Falacioso que pregava por parábolas, em linguagem retórica. Homem vil e desprezível que viveu e morreu pobre,humilhado e açoitado até acabar pendurado em uma cruz. Hipócrita que se contradiz, disse trazer a paz,porém invoca trazer a espada e botar pai contra filho,marido contra mulher,ou seja , fazer da família nossa maior inimiga. Contesta a parábola da outra face, que por sinal, Meslier comenta que só serviu no passar dos anos para justificar todo o tipo de injustiça social por parte dos governantes (monarcas, no caso da época),pois domava aqueles que eram dominados, pois tal como o nazareno,deveriam suportar todo sortilégio que lhes era imputado.Aliás desse tema Meslier é rigoroso e diz:”meu desejo é ver o último padre da terra ser enforcado nas tripas do último monarca”.(N. do R : Citação usual à Voltaire)

Alma - Não existe, pelo menos do ponto de vista Platônico-cristão.O padre ateu foi um materialista contumaz.Baseado em importantes atomistas clássicos como Demócrito, Meslier ignorava a alma imortal ou eterna, que pós-morte será julgada e se sentará ou não ao lado e Deus pai. Para ele o que existe é a matéria,que se subdividem em partes menores ou átomos,que estão em constante movimento,o que causa as mudanças e todas as ações na natureza. O que vale é a experiência (isso antes do empirismo Britânico),inverte o dualismo cartesiano “penso logo existo” e o transforma em “existo logo penso”, colocando o idealismo num patamar inferior. Primeiro devemos experimentar para depois termos a idéia de algo, abrindo as portas para o método científico futuro.Discorda de todos os filósofos deístas da época como Descartes,Pascal e Malebranche,que segundo ele, tinham uma linha de raciocínio boa mas logo se contradiziam somente para justificar Deus.
Criticou ferrenhamente a coalisão Monarquia-clero, um sempre justificando o outro,pois todo o sacerdote é o representante de Deus na terra,e este abençoa toda a coroação ou posse da monarquia,o governante passa ser legalmente também um tipo de represntante divino em vida.Essa união maléfica e totalmente incoerente para os princípios de qualquer religião que almeja o sumo bem,era a principal causa da miséria humana,pois o pouco que os vassalos ou suseranos produziam,tinham que dar em forma de impostos e que a única forma de liberdade seria a luta das classes menos favorecidas.Assim meslier inaugura a coisificação do trabalho e os princípios do comunismo.
Em resumo Jean meslier foi tudo o que as pessoas só seriam quase 200 anos depois,com coragem e desembaraço e sem meias palavras.Enquanto isso seus contemporâneos e conterrâneos iluministas,diga-se de passagem os únicos lembrados em universidades,livros,revistas especializadas e no dia a dia acadêmico, não passavam de deístas e agnósticos em cima do muro,quase sempre acovardados,como os já citados Russeau e seu teísmo, Voltaire com seu deísmo e Montesquieu com seu cristianismo aberto e tolerante,sem contar com os grandes filósofos Alemães que se seguiram como Hegel,Kant,etc.Nunca chegaram a ter metade da coragem do Hercúleo padre.

Hélio Dehon
ensaiosemanifestos@hotmail.com


Um comentário:

  1. É confortável ler perspectivas assim coerentes e lúcidas.

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