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domingo, 6 de março de 2011

Euclides da Cunha e as Ruínas Humanas



Por : Edson Struminski

Imagino que devido à concorrência do monumental “Os Sertões”, passou relativamente despercebido o fato de que no ano de 2007 completaram-se 100 anos de “Contrastes e Confrontos” um livro pouco conhecido de Euclides da Cunha.
Se Os Sertões é um épico, um misto de diário de viagem, denúncia social, estudo antropológico e romance de uma batalha, escrito por alguém que presenciava os acontecimentos, em última análise, como um correspondente de guerra, em Contrastes e Confrontos, o que sobressai é uma prosa sofisticada de um viajante literato, um nômade por natureza, aplicada ao mais fugaz dos escritos, o artigo de jornal. De fato, no livro o que vemos é uma compilação de artigos publicados em jornais brasileiros entre os anos de 1894 e 1905 e transformados em livro em 1907.
Euclides aparece neste livro como um apaixonado pela geografia. Mostra-se lúcido e, ao mesmo tempo, atualizado com os fatos da época na Europa, Ásia e América, tanto quanto era possível em um mundo ainda com limitações de comunicação. Assim é curioso, por exemplo o perfil, com tons proféticos, do Kaiser Guilherme II da Alemanha, que guiava “um povo sob a ameaça permanente de seu mesmo progresso”.  

Ao mesmo tempo uma fina ironia e uma sutil contundência perpassam os escritos de Euclides neste livro. Ele consegue, em uma única frase desbancar, como no artigo “Solidariedade sul-americana”, o finado império, a (então jovem) república brasileira e, de quebra, seus inquietos vizinhos sul americanos. Diz ele: “a república nos tirou do remanso isolador do império para a perigosa solidariedade sul-americana”, uma condição em que “na atividade revolucionária e dispersiva da política sul-americana, apisoada e revolta pelas gauchadas dos caudilhos, a nossa placidez, a nossa quietude, digamos de uma vez, o nosso marasmo (do império brasileiro), delatavam ao olhar inexperto do estrangeiro o progresso dos que ficam parados quando outros velozmente recuam”, uma frase que parece escrita na medida para explicar as relações atuais do Brasil com alguns dos seus inquietos e, por vezes atrapalhados, vizinhos da América do Sul.
Ao mesmo tempo seus escritos versam com categoria sobre os problemas brasileiros, ainda que, como a maioria dos intelectuais do período, Euclides professasse o credo positivista, de uma, até certo ponto, ingênua crença nos poderes milagrosos da ciência.

Assim, é com a lente do positivismo que ele viaja pelo país para registrar os embates entre uma civilização, sempre improvisada, com a natureza do seu país. No entanto, foi frente à imponência amazônica que esta crença vacilou. “No submeter a fantasia ao plano geral da natureza”, diz ele em um discurso para a Academia Brasileira de Letras, publicado neste livro, “iludem-se os que nos supõem cada vez mais triunfantes e aptos a resumir tudo o que vemos no rigorismo impecável de algumas fórmulas incisivas e secas”. “Somos cada vez mais frágeis e perturbados”, Euclides reconhece. Este texto dá o tom do livro, pois suas críticas são liberais, um pouco desiludidas, sem pretensões de mudar o mundo, ou mesmo os governantes, ainda que escritas de forma a sensibilizar as pessoas.

Assim em “Fazedores de Desertos”, publicado em 1901, e “Entre as Ruínas”, de 1904, não é a ninguém em particular que ele critica, muito menos a um governo. É o próprio avanço da civilização humana que ele avalia e seu efeito na vegetação, nos recursos hídricos, nos solos, no clima e na própria civilização que advém daí, das queimadas provocadas por uma agricultura que ainda aplicava métodos toscos, herdados do período colonial.  São textos que confrontam riquezas passadas e farturas naturais com uma realidade arruinada.
Para seus leitores urbanos, afastados do drama de florestas sendo calcinadas para fornecer seu saboroso café matutino, o Euclides viajante misteriosamente lembrava que “temos sido um agente geológico nefasto e um elemento de antagonismo terrivelmente bárbaro da própria natureza que nos rodeia”, para em seguida explicar didaticamente o processo de agricultura itinerante que ia tornando a terra cada vez mais desabrigada e pobre, para produzir exatamente o café consumido até nos países mais distantes, pois o café era, lembremos, uma cultura de exportação, a principal do país na época. Um ciclo que ele atribuía, nos primórdios, ao indígena brasileiro (uma verdade que sabe-se hoje, é apenas parcial), que não dispondo das “belas criações da indústria moderna “ ou dos “progressos rápidos da biologia e da química”, queimava a floresta, plantava em suas cinzas e, após alguns anos, abandonava a área exaurida de sua fertilidade natural, reiniciando o ciclo em uma nova área, deixando apenas uma vegetação arbustiva e frágil para trás, a “capoeira”.  
Euclides considerava o colonizador, fosse ele o garimpeiro ou lavrador, o herdeiro deste modelo de uso da terra, agravando-o a ponto de tornar a paisagem uma ruína só, de natureza e de pessoas. Ele nos apresenta um personagem, o morador deste ambiente desolado que seria, anos depois, fartamente caracterizado por Monteiro Lobato, outro grande e perspicaz escritor. Trata-se do caipira, que “sem o desempeno dos titãs bronzeados que lhe formam a linha obscura e heróica, saúda-nos com uma humildade revoltante” e que, “deixa-nos mais apreensivos como se víssemos uma ruína maior por cima daquela enorme ruinaria da terra”.





Mas Euclides não era um ingênuo defensor do progresso pelo progresso como uma bandeira para o Brasil, como foi para muitos dos intelectuais e políticos da época (e mesmo de hoje), como podemos ler em “Ao longo de uma estrada” de 1901. Com considerável lucidez ele criticava o “traço bem pouco animador que caracteriza a distensão das nossas redes de estradas de ferro”.  A ele não escapou o fato de que as florestas estavam sendo consumidas nas caldeiras das marias-fumaças (a madeira era, então, o combustível das locomotivas) e para produzir os dormentes que sustentavam os trilhos, além de entender que as ferrovias “progridem arrebatadas por uma lavoura extensiva que se avantaja no interior à custa do esgotamento, da pobreza e da esterilização das terras que vai abandonando”.
Euclides contestou este modelo peculiar e oportunista de desenvolvimento, uma réplica do avanço herdado do período colonial, ainda hoje em voga em algumas fronteiras amazônicas (não em todas, diga-se) e que segundo ele “povoam despovoando. Não multiplicam as energias nacionais, deslocam-nas. Fazem avançamentos que não são um progresso” e que, por isto “vão, ao acaso, nesse seguir o sulco das derribadas, deixando atrás um espantalho de civilização tacanha nas cidades decaídas circundadas de fazendas velhas”, palavras terrivelmente atuais quando se trata de avaliar o efeito da implantação da estrutura de transportes nas fronteiras do Brasil, embora, é claro isto também possa ser visto hoje como excessiva simplificação. De qualquer forma, prevendo o enorme debate que iria surgir no mundo mais tarde, ele clamava por uma civilização brasileira que enfrentasse os interesses globais que olhavam a Amazônia como uma região que “mais cedo ou mais tarde se destacará do Brasil..., como se destaca um mundo de uma nebulosa”. Com isto ele nos lançou um desafio que ainda não pudemos confrontar completamente.
O fato é que ele reconhecia que era esta civilização itinerante e improvisada a responsável por um vácuo na vida do país, pois para ele “não temos ainda uma ciência completa da própria base física da nossa nacionalidade, não temos ainda uma história”, constatação que o tornava, portanto, um contestador da versão romantizada da história brasileira vinda do período imperial, que tinha sido construída com o patrocínio e sob os olhos de D. Pedro II e precursor de intelectuais sagazes como Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre.

Os textos de Euclides da Cunha exigiam muito do leitor, ainda exigem, na verdade. Mas apesar das evidências óbvias, eles não eram científicos, embora ele flertasse constantemente com a ciência. Um euclidiano norte-americano, Frederic Amory, fala mesmo em “conteúdo desconexo” de Contrastes e Confrontos e em seu “darwinismo às avessas”. Isto é verdade, já que uma certa eugenia assombrava os primeiros intelectuais republicanos brasileiros que herdaram as mazelas nacionais de séculos de colônia e império. Mas isto não chega a ser um demérito desta obra. De certa forma Euclides estava ajudando a consolidar e dar formato duradouro a uma nova visão do Brasil e de quebra a valorizar e perpetuar o próprio artigo de jornal. Se hoje isto já nos é mais aceitável, uma parcela disto cabe a visão que Euclides tinha sobre o valor da sua própria obra.
Contrastes e Confrontos nos apresenta um Euclides que escrevia com independência de julgamento, refinamento literário e ausência de provincianismo. Por trás do comentarista de jornal estava um grande escritor, mais do que um cientista, que como explica Olímpio de Souza Andrade, em uma das edições do livro, foi o primeiro brasileiro a levar para Portugal, “o colorido novo da língua viva da antiga dependência”, o que incluía novas palavras, a linguagem popular do sertão, os termos técnicos que o próprio Euclides introduziu no português, o vocabulário arcaico misturado com o novo. Pequenas obras primas de precisão, como definiu o crítico português Pereira de Sampaio Bruno, diante da novidade representada pela prosa euclidiana na matriz da língua, lá na distante Europa.

Edson Struminski



Um comentário:

  1. Edson ,

    Coisa finíssima este texto , obrigado pela colaboração. Aguardo por novas.

    [ ]s Vader !

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