Ensaio : Texto literário breve , entre o poético e o didático , expondo idéias , críticas e reflexões morais e/ou filosóficas acerca de certo tema. Defesa de um ponto de vista pessoal e subjetivo sobre um tema , sem que se paute em formalidades como documentos ou provas empíricas ou dedutivas.
Manifesto : Declaração publica de razões que justifiquem certos atos ou fundamentos. Ato de manifestar um desejo , atitude ou repúdio.

O Blog é aberto a todos que quiserem participar. Envie o seu ensaio ou manifesto para ensaiosemanifestos@hotmail.com , não há restrições quanto a temas ou conteúdo , desde que tenha qualidade será publicado , com o nome do autor responsável e um endereço de e-mail para contato. Se preferir participe opinando : adore , deteste , apedreje ou insense.


sexta-feira, 18 de março de 2011

A Pessoa oculta de Fernando Pessoa



Por : Yvette Centeno

A pergunta mais difícil é essa de quem foi , é , (visto que a sua actualidade não parece perder-se) ,Fernando Pessoa. Os estudiosos que querem investigar a sua personalidade, carácter,comportamento face à realidade da vida e do seu quotidiano banal, tentando distinguir a vida da obra, têm dificuldades várias a ultrapassar. A mais importante é a de que Pessoa não queria separar vida e obra, fazendo da obra a sua verdadeira vida. Foi biografado por João Gaspar Simões : "Vida e Obra de Fernando Pessoa, História de uma Geração". Trata-se de uma obra indispensável para qualquer estudioso, pois nela se retrata uma infância (mais tarde sonhada e perdida, que podemos ir acompanhando pelos diversos poemas dos diversos heterónimos), uma adolescência e uma vida madura, esta já plenamente integrada nas correntes (nos ismos) da época com os projectos que despontavam e regularmente se iam abandonando porque  tudo era difícil num país que vivia ainda de um Messianismo mais do que ultrapassado, no qual Pessoa, com alguns outros, teimava em acreditar. Portugal não chegou a ter esse destino de eleição, mas Pessoa acabou por tê-lo, ainda que tardiamente, com a riqueza e complexidade da sua obra.

Omitindo agora a produção poética, é sobretudo nas suas leituras que descobrimos um espírito ávido de saber: dos clássicos aos modernos, há de tudo na sua biblioteca pessoal. E quando digo modernos digo Joyce, na literatura, Freud, na psicanálise ou Eisnstein na teoria da relatividade. Não se pode esquecer a paixão pelo esoterismo que até na poesia veio a ter marca especial. Começou pelas Histórias da Religião, depois passou aos Gnósticos, à Mística judaica, com a Kabala em pano de fundo, seguiu pelos caminhos que Goethe já seguira ( e Pessoa tinha o Fausto na sua biblioteca) dos Rosa-Cruz e da Maçonaria.
Fosse ou não iniciado, - ora dizia que não, ora deixava entender que sim, mas em quê? Na dormente Ordem do Templo, sobre a qual escreveu? Na Sociedade de Teosofia, que nega haver nos arquivos algum documento que se lhe refira?  Pouco importa. Se querer conhecer é já ser iniciado, Pesoa foi, por tal desejo, que o acompanhou toda a vida, um iniciado na Espiritualidade.


Numa fotografia de 1907 vemos o Jovem Fernando ao lado da tia Anica, que será, até certo ponto sua confidente no tocante às materias mais herméticas, como as do espiritismo.
Mas o que escreve o jovem, nos seus apontamentos, só depois da sua morte conhecidos, mais concretamente quase cinquenta anos mais tarde, quando o espólio começou a ser estudado, àcerca de si mesmo?


Não tenho ninguém em quem confiar. A minha família não entende nada.Não posso incomodar os meus amigos com estas cousas. Não tenho realmente verdadeiros amigos íntimos, e mesmo aqueles a quem posso dar esse nome, no sentido em que geralmente se emprega essa palavra, não são íntimos no sentido em que eu entendo a intimidade. Sou tímido, e tenho repugnância em dar a conhecer as minhas angústias. Um amigo íntimo é um dos meus ideais, um dos meus sonhos quotidianos, embora esteja certo de que nunca chegarei a ter um verdadeiro amigo íntimo. Nenhum temperamento se adapta ao meu.(…)Acabemos com isto. Amantes ou namoradas é coisa que não tenho; e é outro dos meus ideais, embora só encontre, por mais que procure no íntimo desse ideal, vacuidade e nada mais.Impossível, como eu o sonho! Ai de mim! Pobre Alastor! Oh Shelley, como eu te compreendo!”

É bom saber que Alastor é o título de um poema épico de Shelley, e que representa o espírito da solidão: Alastor or the Spirit of Solitude, publicado em 1917, ajuda a datar a partir desse ano o pequeno fragmento de Pessoa,no seu desabafo. O nome Alastor deriva da mitologia romana, significando “espírito do mal”, que podemos modernamente entender como um daimon, uma energia negativa da alma mas que, como em Platão, conduz o imaginário do poeta, é como que a fonte da sua inspiração.
O que nos conta o poema? A vida de um poeta que busca intensamente a esfera mais oculta da natureza, a mais obscura, as “ estranhas verdades das terras desconhecidas”, situadas no oriente.Vê em sonhos uma jovem coberta por um véu e isso representará para ele a visão da transcendencia para além do mundo natural. Algo como que o espírito e a matéria tal como deviam existir em união no amor humano.
Mas a visão perde-se, esfumada no sonho, e a busca do poeta, interminável, irá levá-lo por muitas aventuras, das quais a mais interessante é, ao quase morrer afogado, descobrir a mutável natureza do homem, na sua humanidade, que a transcendencia envolve, como que no berço da sua infância.
É então que o poeta aceita que só a morte o pode libertar das contigências do mundo natural.

Pessoa, na sua solidão, que vive e que descreve como o poeta de Alastor, é já por estes anos uma figura pública das letras da época, com os amigos de Orpheu. É visível em muitos outros casos como este, a complexidade da natureza psíquica e artística de Pessoa. Tudo viver, para tudo dizer, com a  consciência de que tudo viver é impossível. Ocultas ficarão outras preocupações, as insólitas buscas de outra coisa, noutras esferas que se sabe de antemão serem inacessíveis.



 Fernando Pessoa situa o início da sua produção juvenil “por volta de 1904”. De facto são dessa data os primeiros poemas ingleses de Alexander Search e já neles se definem, até 1910, os grandes temas em que parte das suas características se manifestam: reserva e mesmo repugnância física em relação ao corpo, à aproximação de outrém que pudesse existir; o gosto decadentista do macabro, como na novela A Very Original Dinner (1907) ou o gosto pela obra de Poe, de quem traduziu O Corvo e à sua maneira imitou o conto policial, e uma permanente e quase dolorosa interrogação sobre o sentido da vida, o mistério do universo . O homem-Pessoa é, desde que começa a pensar e a escrever, meditando na sua solidão, um paradigma do filósofo hermético.

A curiosidade pelo Oculto e as práticas do Ocultismo, datam de longe. Numa carta à sua tia Anica, de 1916, escreve como sente que está a desenvolver qualidades “não só de medium escrevente mas também de medium vidente. Começo a ter aquilo a que os ocultistas chamam ‘a visão astral’ e também a chamada ‘visão etérica’.Tudo isto está muito em princípio, mas não admite dúvidas”.
Podemos afirmar, pela quantidade de livros relativos ao Ocultismo em geral, guardados na sua biblioteca, que o interesse nunca se perdeu, fosse qual fosse o bom ou mau ou nulo resultado de tais investigações ou práticas.  Há um pequeno documento encontrado no espólio em que afirma que a mediumnidade diminui as capacidades intelectuais e por essa razão não deve ser praticada. Mas noutros textos explicará como a bebida funciona como dispositivo de “abertura”, mágico ou mesmo místico, pelo menos surreal, para a criação literária, no seu caso.Não desconhecia a chamada escrita automática, que também praticou, e é talvez mais explícita nos arroubos de Álvaro de Campos. Como não desconhecia a meditação dos exercícios de Yoga – há os livros que comprovam ao menos a leitura, já que da prática não nos chega a falar.

Ao seu espírito de curiosidade insaciável tudo interessava, da cultura oriental como da ocidental.
Tentando compreender o homem, pela evolução do poeta e da sua poesia, a imagem que fica é a de um adolescente tímido, mas curioso, impetuoso na sua ânsia de criar em liberdade – sair era o seu desejo máximo - sair do seio de uma família burguesa que não o compreendia, sair do seio de um meio cultural, politico, artístico, igualmente limitado, sair para marcar a sua diferença nunca : renascer era o que ele profundmanete desejava; ser outro, um outro reconhecido e aceite como se reconhece e aceita o filho que se tem. Ficamos então com um adulto prematuramente envelhecido – mas ele já era velho em criança, quando jovem e torturado adolescente…

Essa consciência de um dever outro, para além da arte, embora a arte fosse a aventura que lhe consumiu a vida, é o que o torna mais uma vez diferente e o afasta dos seus contemporâneos.
O que fica a Pessoa? A própria obra, a própria interrogação, a ânsia das respostas que não chegam.

Em Acrónios, livro de poemas do seu amigo Luís Pedro Moitinho, em cujo escritório Pessoa trabalhou, e para o qual  escreveu um prefácio discreto, de parcos ou nenhuns elogios (pois lhe faltava a modernidade de linguagem desejada pelos de Orpheu), podemos ler um poema dedicado a Mário de Sá Carneiro (já falecido a esta data de publicação do livro, 1932) e a Fernando Pessoa:

A Tristeza de Nunca Sermos Dois

Eu sou o reflexo do além
sôbre mim.
Distante e perto de ninguém
assim,
eu sou sombra e realidade,
penumbra e espectro.Sou tudo
fóra da homogeneidade.
Porque canto, mudo,
o que há-de
mostrar àquilo que só eu sou,
sinto-me afastar
para um logar
que ninguém
alcançou
aquém.
Outro de mim permaneço
no logar inicial.
Com sono, não adormeço
porque, outro, faço ruídos.
Embebedo-me de ideias
para conseguir um fim.
Com os sentidos
adormecidos,
assim,
fico mais perto de Mim.
(pp.37-38)

Eis como foi visto por este amigo, na sua relação com Mário – quem sabe se a única que de verdade teve e prezou como nenhuma outra.
Vingou-se, deixando para a posteridade uma arca com mais de vinte e sete mil documentos de que se ocupam agora os estudiosos, os curiosos, toda a sorte de gente.
O importante é que o leiam sempre.

(N. do E. Foi mantida a gramática e ortografia do Português europeu , com o qual a autora originalmente produziu o texto )

Yvette Centeno
yvettecenteno@gmail.com


terça-feira, 15 de março de 2011

José Bonifácio e os primórdios da discussão ambiental no Brasil




Por : Edson Struminski

Em tempos de disputas parlamentares e contestações sobre a validade do Código Florestal, é saudável entender que as origens desta discussão são antigas e, de certa forma, representam uma forma particular de pensamento sobre a natureza brasileira. Também considero importante conhecer um dos personagens que mais contribuíram para a qualidade desta discussão em nosso país.
Até o fim do período colonial, os portugueses, ou os representantes brasileiros do poder metropolitano no Brasil tinham pouco ou nenhum compromisso com a manutenção de qualquer atividade sustentável em nosso país. No dizer de Sérgio Buarque de Holanda, o Brasil era um local para a feitorização da riqueza fácil, um lugar para enriquecer e voltar para Portugal, com isto, tudo que pudesse ser considerado “propriedade” de determinado senhor dono de sesmarias ou feitorias (escravos, terras, árvores, rios), estava lá para ser usado e gasto. Em última análise, esta noção, da riqueza posta pela natureza para usufruto do senhor proprietário é o que ainda está em debate subliminar na discussão sobre ampliar a permissividade da lei florestal na atualidade.

Mas o fato é que já no fim do século XVIII esta fórmula já dava sinais de esgotamento, frente à novidade do aparecimento da ciência moderna na Europa, que criou métodos mais inovadores e racionais de uso da natureza, com o objetivo de aumentar a riqueza das nações. Com isto, aquelas nações, como Portugal e Espanha, que limitavam-se a explorar a riqueza fácil se viram perdendo a corrida entre as nações que vinham desenvolvendo métodos científicos para esta mesma exploração da natureza.
No fim do período colonial português no Brasil, as idéias que embalavam a elite intelectual luso-brasileira tinham origem nas inquietações da  burguesia ascendente européia, principalmente da Inglaterra e da França do século XVII: o liberalismo e o racionalismo cartesiano, frutos do Iluminismo. 

O discurso liberal revolucionário, juntamente com o cartesianismo, espalhou-se pela Europa, chegando até Portugal. O governo português do Marquês de Pombal absorveu estes discursos, movido por uma visão pragmática do conhecimento científico, cujo objetivo era dinamizar a produção de matérias-primas nas colônias em benefício da Metrópole. Em 1772, por influência de Pombal, o ensino superior português atualizou seu sistema pedagógico, afastando-se da escolástica medieval, com a expulsão dos jesuítas e aproximando-se da filosofia natural e da economia política européias.
Além da reforma de escolas antigas, Pombal criou faculdades novas, que abriram um mundo novo. Porém, os alunos eram levados a se preocupar mais com a realidade concreta (o discurso cartesiano) do que com a erudição, diminuindo-se as especulações filosóficas liberais. Procurava-se mesmo restringir a expansão dos conhecimentos tendo em vista a agitação intelectual dos demais países europeus. A contradição deste sistema residia na vontade férrea de Pombal de reformar a mente humana sem arcar com as consequências, civilizando uma nação e tentando, ao mesmo tempo, fazê-la escrava. Com isto, ele não levou o liberalismo até o fim, mas permitiu que idéias liberais germinassem em Portugal e no Brasil. Note-se que é no governo de Pombal que foram libertados os escravos em Portugal, ainda que a escravidão se mantivesse nas colônias.

Note-se também que Pombal impediu a criação de universidades na América portuguesa e os graus e privilégios universitários não eram reconhecidos aos alunos dos jesuíticos, os quais foram, inclusive expulsos do Brasil em 1759, muito embora sociedades científicas naturalistas tenham sido criadas em 1759 em Salvador e em 1772 no Rio de Janeiro. De qualquer modo, muitos dos novos projetos científicos eram tutoriados ou tinham concepção tão mercantilista quanto às políticas da Coroa e mesmo assim sequer eram considerados pela Metrópole.
De qualquer modo, é neste período que é possível identificar o surgimento da crítica ambiental no Brasil e não, por exemplo, nos anos 1980 como muitos ambientalistas gostariam de fazer com que nós acreditássemos.
Tratava-se, na verdade, da repercussão do preparo, na Europa, de estudiosos brasileiros que seriam os administradores da colônia portuguesa e que se defrontariam, no Brasil, com métodos primitivos de uso da natureza que sua sofisticada formação rejeitaria.




Destes brasileiros, um nome ganharia destaque não só na análise da exploração da colônia brasileira, mas também na dos métodos de trabalho da própria metrópole portuguesa: José Bonifácio de Andrada e Silva. Típico representante do período iluminista, com toda a versatilidade que isto representava na época, José Bonifácio construiu carreira no Estado português e também, por breve período, no Brasil, como administrador, cientista, político e estadista. José Bonifácio acabaria se mostrando um zeloso representante da nova mentalidade do governo português em diversas facetas, inclusive em questões ambientais. Em seu primeiro texto:  “Memória sobre a pesca das baleias” (In: Caldeira, 2002), podemos ler uma síntese do típico modo de pensar científico da época, onde o conhecimento gera a crítica sobre o mau uso de um dado recurso e finalmente se sintetiza em possibilidades de ganhos a partir de um uso mais racional da natureza. Ao mesmo tempo ele se mostrava particularmente preocupado com a conservação desta mesma natureza, preocupação que revelaria em outros textos. Se hoje este tipo de raciocínio é comum, certamente era inovador em 1790. A partir deste texto Bonifácio angariou prestígio e partiu para um longo período de estudos pela Europa, 10 anos, uma concessão rara na época. 

A conservação das florestas era outro tema recorrente para José Bonifácio. Em uma “Memória sobre a necessidade e utilidades do plantio de novos bosques em Portugal” (In: Caldeira, 2002), ele faz um alerta sobre a situação do ambiente natural na metrópole portuguesa e uma ampla e sofisticada leitura das mazelas provenientes da ausência de florestas, incluindo problemas na regulação do clima e na manutenção da fertilidade do solo, bem como lembra o efeito da produção vegetal na captura do carbono, tema atualmente em grande voga. Neste texto, ao contrário do anterior sobre a pesca das baleias, que era basicamente um estímulo à livre iniciativa bem ao gosto do pensamento liberal da época, o que aparece é um chamamento à ação do Estado, que deveria agir como “vigilante sisudo” sobre os proprietários privados, cuja ignorância “foi quem na Europa  conduziu a mão temerária do lavrador ignorante para despojar os montes do seu natural ornamento”. Contra isto ele sugeria novos regulamentos e uma administração fundamentada em conhecimentos científicos e na experiência, algo que na prática só começaria a acontecer a partir do surgimento de governos republicanos com fundamentação positivista.

Anos depois no Brasil, José Bonifácio se defrontaria com os mesmos problemas, assinalando, porém, que a destruição do meio natural poderia gerar repercussões sociais muito amplas, inclusive a desagregação das comunidades, pela desorganização das atividades produtivas e da vida civil, que, na visão dele, requereriam estabilidade territorial e demográfica, conforme pode-se deduzir do parágrafo a seguir retirado da sua viagem mineralógica à então província de São Paulo, de 1820 (Dean, 1997): “Todas as antigas matas foram barbaramente destruídas com fogo e machado e esta falta acabou em muitas partes com os engenhos. Se o governo não tomar enérgicas medidas contra aquela raiva de destruição, sem a qual não se sabe cultivar, depressa se acabarão todas as madeiras e lenhas, os engenhos serão abandonados, as fazendas se esterilizarão, a população emigrará para outros lugares, a civilização atrasar-se-á e a apuração da justiça e a punição dos crimes experimentará cada vez maiores dificuldades no meio dos desertos”.

Assim, não por acaso, para um intelectual atento como José Bonifácio, a independência do Brasil em 1822 e a primeira Assembléia Constituinte de 1823 foram, de fato, as primeiras oportunidades, depois de mais de 300 anos de escravidão e de degradação dos recursos naturais do país, de se discutir uma pauta de modernização e "progresso" para a nova nação soberana. Segundo PÁDUA (2002, 147), José Bonifácio propunha um discurso então novo, de política geral de proteção dos recursos naturais do país, que considerava como trunfo do Brasil para seu progresso futuro. Tal política passava pela superação do modelo agrícola colonial latifundiário, monocultural e destrutivo, ou pelo modo de vida tradicional dos índios, visto, por ele, como parasitário, através da reforma agrária e de métodos agronômicos modernos e mais ambientalmente equilibrados.

Em seu texto, “Necessidade de uma academia de agricultura no país” (In: Caldeira, 2002) e em outros similares, fica claro que a visão de Bonifácio sobre este assunto é mais ampla do que pode se imaginar à primeira vista. Bonifácio defendia a criação de instituições científicas com um cunho inédito então no Brasil. Tratava-se, como ressalta PÁDUA (2002, 154), de uma cosmovisão sofisticada e integrativa, fundada no que havia de melhor na filosofia natural do seu tempo. As “academias”, de José Bonifácio deveriam envolver estudos e ensino de geografia, economia, política, história, biologia, zoologia, urbanismo, hidrologia, mineralogia, química, enfim, todo o leque de conhecimentos que ele estudou durante sua estadia na Europa.

Tamanha capacidade de inovação fez com que José Bonifácio acabasse por chocar-se com o pensamento conservador, tanto em Portugal como no Brasil. Ainda em seu período como responsável por várias instituições portuguesas, ele defrontou-se com inúmeros obstáculos causados pela burocracia e pela passividade de funcionários desinteressados em mudanças. No Brasil, como um dos dirigentes políticos da mudança maior, a independência do país, teve de enfrentar oposições e resistências a seus projetos sociais e políticos como a supressão da escravidão, a incorporação dos indígenas e o próprio uso racional da natureza, que batiam de frente contra traficantes de escravos e proprietários rurais que eram a base das fortunas e do poder liberal conservador do início da monarquia brasileira.
Na verdade, as idéias de José Bonifácio seriam consideradas inovadoras em qualquer país da América naquele momento, mesmo o governo norte americano levaria décadas até excluir a escravidão da sua vida social. Apenas poucos meses após propor estas idéias na Assembléia Constituinte de 1823 ele saiu do governo, para um exílio forçado em Paris por 6 anos. Voltaria em 1829, para assumir sua cadeira de senador, onde assistiria a derrocada de Pedro I, primeiro governante do país e assumiria o papel de tutor do seu filho, o jovem Pedro II, até ser novamente afastado em 1833.
José Bonifácio passou seus últimos anos de vida na ilha de Paquetá, olhando para um pedaço da floresta virgem que tanto apreciava. Acabou se tornando a referência moral do século XIX e das lutas sociais e ambientais que aconteceriam durante todo o império brasileiro.

Edson Striminski
edson_struminski@yahoo.com.br


segunda-feira, 14 de março de 2011

O Poder do Contágio





Por : Yvette Centeno

Os poemas falam uns com os outros, ou as imagens têm poder de contágio:
Podiam ser outros os exemplos, mas fiquemos com estes por serem recentes.
A obra poética de Paul Celan, traduzida para português, foi lida, estudada regularmente, e teve eco e resposta em alguns dos poetas portugueses e brasileiros que mais se interessaram por ela.
Celan, exilado na própria língua que escolheu para escrever, a língua alemã (sendo ele de nacionalidade romena) escolhe a língua dos assassinos da sua pátria, da sua gente, mesmo depois de já ter ido para França, tendo escapado à morte certa do campo de concentração onde fora internado em 1941 e vira tantos e tantos judeus serem sacrificados.
Suicida-se em Paris, em 1970, atirando-se ao Sena.
A interrogação e o desespero do silêncio que recebe como única resposta são o clima em que a sua poesia é produzida.
Cada poema um lamento, um queixume, uma trágica evocação da morte que arbitrária e cruel se abateu sobre um povo e uma raça.
Cada poema uma discussão em aberto com um Deus que, se existe, se fechou e se cala sobre o destino de uma humanidade que era, ao fim e ao cabo, a materialização de si mesmo, a  consciência de si que só por via do Homem ( Cristo, para os cristãos) podia ter adquirido. Esse Deus–primeiro, Jeová, fizera nos tempos primordiais um pacto com a sua criatura e o povo que a partir dela se constituiu, o povo de Israel.
A interrogação de Celan prende-se com a ruptura aparente desse pacto de respeito pela condição humana, seus direitos fundamentais, sendo o primeiro de todos o direito à existência - e que a guerra injusta tinha vindo quebrar sob o olhar complacente de uma divindade que preferia o silêncio a um gesto de comiseração.

A poesia de Celan é pois carregada dessa amargura de uma existência negada sem razão, as suas imagens têm a marca e a mancha da morte sem sentido, pois onde não há resposta para e sobre a vida ( a existência, do idivíduo ou de uma nação inteira)-resta apenas o suicídio como solução.
E isto apesar de ter sido, em França, reconhecido como poeta notável, vendo a sua obra publicada regularmente e obtendo, como tradutor para alemão das obras de Rimbaud, do teatro de Picasso, de René Char, de Henri Michaux e até de Pessoa, entre outros, um sucesso merecido.
Mas o sucesso não lhe dava a resposta às suas grandes interrogações, sobre o Tempo e o Ser de que Heidegger se fizera expoente máximo, com a obra do mesmo título.
Celan não se inscrevia, como diz José Gil, no tempo e no espaço que vivera e em que vivia : nesse Tempo, que não sentia como seu, integrando-se nele, a sua incomodidade era permanente, não lhe permitia sentir-se como parte e pertença, mas antes como corpo estranho, expulso, excluído, recusado.
Esse estranhamento é permanente no que escreve e não o deixará viver nem bem com os outros nem bem consigo mesmo e ainda menos com o deus da sua religião.
A perguntas sem resposta responde com a dôr permanente do existir.

A dôr da guerra, de que foi vítima inocente; a dôr de ter sobrevivido enquanto os outros morreram.
Cantará, para sempre, essa dôr e aquelas mortes.

Entrada De Violoncelos
“do lado de lá da dôr:

os poderes, dispostos
em contra-céus,
fazem rolar o indecifrável diante
de corredores de sobrevôo e acessos,

a
noite escalada
está cheia de ramagem pulmonar,

duas
nuvens de fogo sopradas
cavam no livro
aberto pelo ruído das têmporas,
vai nascendo a verdade,

doze vezes se acende
o além atingido por setas,

a mulher de sangue
negro bebe
o sémen do homem de sangue negro,

tudo é menos do que
é,
tudo é mais”.




Contrasta o realismo espacial, físico,  das imagens, com o tempo dos violoncelos, sendo a arte da música a arte do tempo por excelência; contrasta a dôr evocada com o livro de que vai nascendo a verdade ( o livro devia ser o da vida mas é na realidade o  da morte) e a maior violência surge no contraste do par de sangue negro (não são loiros arianos de olhos claros)  com um além que os ignora e que permite que sejam abolidos da existência.
A conclusão é terrível:
“tudo é menos do que / é / tudo é mais”.
A aparência ( o que é menos)  oculta tudo o que é mais ( a negação do direito à existência) e por ser um “mais” oculto se torna tão gravemente doloroso para quem o testemunhou.
A divindade, com o seu livro, com as suas doze velas que se acendem, é tragicamente posta em causa. A rosa, que em Dante é um dos seus símbolos fulgurantes, e em Rilke será imagem recorrente, será na poesia de Celan a flôr de espinho que se enterra, envenena e mata.

É a “rosa de ninguém” sendo ninguém o nada, o próprio deus do silêncio, do negro absoluto e do vazio onde não existe um dizer compassivo. É a rosa que, a existir, já chegou tarde, como no poema Cristal:

“Não busques nos meus lábios a tua boca,
nem diante do portão o forasteiro,
nem no olho a lágrima.

Sete noites mais alto muda o vermelho para vermelho,
sete corações mais fundo bate a mão à porta,
sete rosas mais tarde rumoreja a fonte”.

Ordenado em volta do número sete, o da criação, que devia figurar a vida, a imagem que ressalta é a da morte, a do tempo “mais tarde” – que é o tarde de mais.

Mas tudo isto vinha a propósito do contágio das imagens poéticas entre si, do arrastamento que a leitura de um ou mais poemas provoca noutros poetas, estabelecendo uma espécie de corrente de pensamento imagético, em diálogo aberto, emocional.
Um bom exemplo é o de um grande poeta brasileiro contemporâneo, Paulinho Assunção, leitor de Rilke, e sobretudo do mesmo Celan que a todos nós apaixonou à medida que a sua obra foi sendo estudada e conhecida:

Mazurca Para Dois Violoncelos

 aedos gregos gotejaram toda a noite
pela torneira da pia da cozinha. ao
gato,
dei o nome de milênios. chovia Rilke.
vento,
só o vento baixo, curto, sereno. e os
aedos,
longe dos livros, gotejaram toda a noite
pela torneira da pia da cozinha.

ah os poetas de nova iorque. se
ouvissem. se
percebessem o gota a gota dos aedos
pela torneira daquela pia, água
ininterrupta,
música dos primevos. augusto de campos
estelar de signo a signo, setenta e seis
anos
é o que dizem os calendários.

celan numa cela de vidro.
murilo
mendes
e o geômetra emílio moura. ah se os
poetas
de paris. ah se eles ouvissem. se
percebessem
o gota a gota dos aedos na penumbra.

Lisboa vem em sonhos. o tejo.
barcarola
camoniana com luscos-fuscos de
cesarini.
sou o olho da serpente. pulo de rã
dentro do lago.
augusto de campos estelar de signo a
signo,
setenta e seis anos é o que dizem os
calendários.

poetas: sem língua não há poema. dói
na língua
a negligência. sou o rubro das bruxas
queimadas.
chovia rilke. murilo mendes e o
geômetra emílio moura.

os aedos em seu trabalho. gota a gota,
longe
dos livros, gota a gota, pais dos livros.
chovia
na biblioteca o gotejar vindo da pia.
meu gato.
dei-lhe um nome: dei este nome
milênios.

o tempo cai à noite com as folhas dos
vasos
renovados. pouca água em cada dia,
um dedo
d’água para a samambaia. augusto de
campos
estelar de signo a signo, setenta e seis
anos
é o que dizem os calendários.

sou o que vim e não volto. o bicho rói e
rói
dentro do tempo. meu gato chamado
milênios.
chove rilke. o deserto. os beduínos.
poema
não é frase. é xadrez, lance de dados.

Yvette Centeno
yvettecenteno@gmail.com


quarta-feira, 9 de março de 2011

As origens religiosas da misoginia e os seus ecos contemporâneos



Por : Lord Vader

A sociedade ocidental é misógina . Seja ocupando os menores cargos de uma empresa , relegada ao ostracismo , ou mesmo figurando como um produto na capa da Playboy onde ostenta uma falsa idéia de poder ; Não importa : a mulher está na periferia de uma sociedade falocêntrica , à sombra de um mundo dominado pelo gênero masculino , e via de regra ocupando o papel que a eles melhor interessar , seja este papel o de uma bedel subalterna ou o de uma glamourosa vedete que lhe satisfaça os desejos , mas sempre  aos seus pés , em um degrau inferior . Heidegger afirmou que toda sociedade ocidental , inclusive o distante eco de nossos tristes trópicos , partilha de uma mesma tradição que herdamos da sociedade medieval , e são estes traços que nos movem para o nosso próprio entendimento .

Na idade média a maioria dos conceitos e idéias acerca das mulheres foram elaboradas pelos escolásticos (aqui abro um pequeno parêntese de desagravo à todos os escolásticos) . Sendo assim , os textos que muito raramente tratam do tema mulher estão impregnados da aversão dos religiosos , homens da igreja que certamente viviam à distância delas. Muitos clérigos consideravam-nas misteriosas , não as compreendiam . Os textos estão impregnados de uma forte carga misógina clerical , onde a mulher é considerada um ser muito próximo da carne e dos sentidos , uma pecadora em potencial , naturalmente atraída pelo vício , portadoras e disseminadoras do mal . A principal preocupação dos clérigos para com elas era mantê-las virgens , e como seres demoníacos que eram , o mais longe possível dos mesmos , já que eram não apenas a causa mas também o objeto do pecado. Essa falta de conhecimento da natureza feminina causava medo aos homens , e criou-se uma interessante pedagogia de salvação da mulher a partir de três modelos bíblicos que trazem em si todo o papel civilizador e moralizador desempenhado pela igreja católica :

Eva : Era um excelente exemplo para ligar a mulher à corporieidade e inferiorizá-la . Responsável pelo pecado original e pela queda do homem (humanidade) , dominada pelos sentidos e pelos desejos da carne , traz em si todos os vícios simbólicos da feminilidade - Luxuria , sensualidade , gula .

A Virgem Maria : Tinha o papel de redentora de Eva , que veio ao mundo com a missão de libertá-la da maldição da queda. Surgiu a idéia de Maria como a mãe da humanidade , de todos os homens e mulheres que viviam na graça de Deus. (Na verdade Maria representa um interessante arquétipo muito arcaico dentro da mente humana , que foi ocupado anteriormente pela deusa Atena , mais remotamente por Afrodite , deusas da fertilidade , e nos primórdios pela grande deusa-mãe terra).
Porém , a virgem Maria era um ideal superior a ser seguido , mas efetivamente inatingível pelas mulheres comuns. Assim surge um terceiro e definitivo modelo , a da Madalena arrependida.


Maria Madalena : A pecadora arrependida , demonstrando que é possível à todas que abandonem uma vida cheia de pecados , seguindo o seu mestre até o calvário , podem assim chegar à Deus..




Essa concepção de mulher construída através dos séculos permitiu a manutenção dos homens no poder e legitimou a eles a submissão da ordem estabelecida . Esta construção começou a ruir apenas em meados do século XX , com o advento dos movimentos civís de libertação da mulher , porém , ainda têm seus alicerces firmemente fincados em nossa sociedade . O controle exercido pelos homens se transforma com o tempo , e as estratégias de dominação são produtos da cultura de cada tempo . Assim , na idade média , ocultava-se e negava-se o corpo da mulher . Hoje este corpo é belo e publicamente exibido como um troféu , como um caro objeto de consumo . Seja negando-o ou idolatrando-o , o que se busca é incutir um certo tipo de comportamento ao sexo feminino , mas sempre determinado pelo homem .

Além disso , dois mil anos de impregnação judaico-cristã no pensamento ocidental criaram em muitas mulheres , independente de classes sociais , uma identificação de seu corpo , de sua natureza , de sua sexualidade e de sua afetividade com tudo que é imundo , vergonhoso , pecaminoso , secreto , proibido , errado e misterioso. Completamente em desacordo com o natural , singelo , racional e evolutivo . Viva as mulheres !

Lord Vader
ensaiosemanifestos@hotmail.com


terça-feira, 8 de março de 2011

Onde está o seu deus ?




Por : Rafael Arrais

No início do século II d.C., no mercado principal de Enoanda, cidade de 10 mil habitantes no sudoeste da Ásia Menor, foi erigida uma enorme muralha de oitenta metros de largura e quase quatro metros de altura, com inscrições baseadas na filosofia de Epicuro, e cuja finalidade era atrair a atenção dos compradores. Era uma espécie de alerta:
“Comidas e bebidas requintadas... de modo algum libertam do mal ou proporcionam a saúde da carne. Deve-se atribuir à riqueza excessiva o mesmo grau de inutilidade que representa acrescentar água a um recipiente que já estava prestes a transbordar. Os verdadeiros valores não são gerados por teatros e termas, perfumes e essências... mas pela ciência natural.”
O muro foi pago por Diógenes, um dos homens mais ricos de Enoanda, que desejava, 4 séculos após Epicuro e seus amigos terem fundado o Jardim de Atenas, compartilhar os segredos da felicidade que ele havia descoberto na filosofia de Epicuro.

O antigo filósofo cuja maior parte das obras se perdeu foi bem mais incompreendido – ou analisado de forma superficial – do que compreendido. Dizem que tudo que ensinava era a busca pelo prazer (hedonismo) e o materialismo (atomismo), mas é preciso desconhecê-lo profundamente para tais tipos de hiper-simplificações de seu pensamento.
Sobre a busca do prazer, Epicuro em realidade afirmava que “o homem que alega não estar ainda preparado para a filosofia ou afirma que a hora de filosofar ainda não chegou ou já passou assemelha-se ao que diz que é jovem ou velho demais para ser feliz.” Longe de ensinar uma busca desenfreada por prazeres mundanos, ele defendia que uma vida equilibrada e na companhia de boas amizades era todo o necessário para a felicidade – neste caso, pão e água eram suficientes... “De todas as coisas que nos oferece a sabedoria para a felicidade de toda a vida, a maior é a aquisição da amizade... alimentar-se sem a companhia de um amigo é o mesmo que viver como um leão ou um lobo.”

Poucos foram aqueles que, ao longo da história, enxergaram o quanto a filosofia de Epicuro sempre se fez necessária para nos afastar das tentações e desejos inúteis da vida em sociedade. Ele separava os desejos da seguinte forma:

O que é essencial para a felicidade

Natural e necessário : Amigos, Liberdade, Reflexão, Casa, Comida, Roupas 
Natural mas desnecessário : Palacete, Terma privativa, Banquetes, Empregados, Peixe, Carne
Nem natural nem necessário : Fama, Poder, Status


Dizem também que Epicuro era ateu. Mas de fato tudo o que defendia era que os deuses viviam em uma realidade muito superior a mundana, de modo que provavelmente não estariam preocupados com nossos afazeres, e nem era necessário que nos afligíssemos com eles ou que preparássemos rituais e oferendas para aplacar sua ira ou barganhar por favores sobrenaturais.
Para Epicuro, isso tudo era fonte de angústias desnecessárias... Porque se preocupar com política, com os deuses, com o acúmulo de riquezas ou com a morte, se o prazer da vida está exatamente em compartilhá-la com os amigos, em não viver com mais do que o necessário, e na constante reflexão sobre a natureza infinita do Cosmos?

Em sua recusa em se preocupar com um panteão de deuses com seus próprios afazeres e em sua exaltação da felicidade que advém da vida harmoniosa, em contato constante com os amigos e a natureza, Epicuro era bem mais religioso que a maioria dos eclesiásticos – e bem mais monoteísta que a maioria dos religiosos que dizem seguir somente a um único Deus, mas que ao fim do dia seguem a vários...
Pensemos nos dias atuais, em que a maior religião e o maior deus passam desapercebidos da grande maioria, embora quase todos acabem rezando para ele: o deus do consumo. Seus evangelizadores estão em cada canal de TV paga ou aberta, sua bíblia é ensinada desde as “orientações vocacionais” das escolas aos “discursos sobre a dura realidade da vida e sobre como um bom salário é mais importante do que tudo”... Andando pelas ruas, vemos suas orações expostas em outdoors e páginas de jornal. Ele é tão poderoso que abocanhou até mesmo o tempo – “tempo é dinheiro, eu sou o tempo, eu sou o seu deus!”
Ao contrário do deus de Epicuro, que podia ser encontrado em qualquer grama de jardim, nalgum galho partido ou nos sorrisos dos amigos, este deus é feito sobretudo de coisas sem vida e de desejos desenfreados; muito embora possa parecer “onipresente” em nosso dia a dia – uma roupa de grife, um terno, um celular, um videogame, um carro, um iate... Ele nunca se cansa, e o tempo é a prova:

Porcentagem dos norte-americanos que declararam os seguintes itens como necessários
                                               
                          1970           2000
Segundo carro             20%            59%
Segunda televisão          3%            45%
Mais de um telefone        2%            78%
Ar-condicionado no carro  11%            65%
Ar-condicionado em casa   22%            70%
Lava-louças                8%            44%


Hoje em dia vivemos correndo, "utilizando" todas as horas do dia. Comendo em fast-foods e tendo relacionamentos no estilo fast – simples, rápidos, indolores, muitas vezes “anestesiados”. Se nos angustiamos com a vida ou se caímos em depressão, oramos também ao grande profeta do deus do consumo – o guardião dos comprimidos em seu manto de tarja preta... Com tudo isso economizamos bastante tempo. Tempo para...?
Não era esse tipo de religião que Epicuro professava. Ele preferia simplesmente ser livre, talvez por reconhecer que perto da imensidão da natureza, suas angústias e desejos eram como poeira e folhas espalhadas pelo vento em seu jardim.
Quaisquer que sejam as diferenças entre as pessoas e seus desejos e angústias, elas não são nada perto das diferenças entre os seres humanos mais poderosos e os grandes desertos, as altas montanhas, geleiras e oceanos, a luz das estrelas. Existem fenômenos naturais tão grandes que tornam as variações entre duas pessoas quaisquer ridiculamente pequenas. Ao passar um tempo em amplos espaços, a consciência de nossa própria insignificância na hierarquia social pode se transformar na consciência reconfortante da insignificância de todos os seres humanos no Cosmos.
Podemos superar o sentimento de que somos insignificantes não nos tornando mais importantes ou desejando fama, poder ou status, mas reconhecendo a insignificância relativa de todos. Nossa preocupação com quem é alguns milímetros mais alto do que nós pode dar lugar a uma reverência a coisas infinitamente maiores que nós, uma força que podemos ser levados a chamar de natureza, vida, infinito, eternidade – ou simplesmente Deus.
Mas, sobretudo, quem mantém os pés no chão florido das amizades duradouras e a mente na imensidão estelar do Cosmos, este não poderá jamais ser seduzido pelas efêmeras promessas dos arautos do deus do consumo, tampouco necessitará recorrer a tratar da angústia com comprimidos . Este tem a seu lado o amor ao saber, as reflexões diárias, a liberdade de pensamento: este encara toda angústia e todo desejo por si mesmo, ou talvez com a ajuda de amigos. Seres reais, não imaginários nem inanimados – aí está o deus de Epicuro. Onde está o seu deus?

Crédito da imagem: Bettmann/Corbis (anúncio de cigarros de 1936)


Rafael Arrais
rarrais@yahoo.com


segunda-feira, 7 de março de 2011

O Poeta Multiface




Por : Mateus André

Revolucionário, sim , essa palavra é cabível na classificação do grande poeta Fernando Pessoa, assim como inclassificável, louco , dentre outras nomenclaturas usadas pela critica literária.
Como todos os grandes escritores estiveram a frente de seu tempo, conseguiram e conseguem enxergar, além de seu mundo, pontos que também são perceptíveis a diversos artistas, filósofos e cientistas.
Fernando Pessoa, que trabalhou a literatura tanto na prática quanto na teoria, em seu texto “Dividiu Aristóteles a poesia em lírica, elegíaca, épica e dramática” que aponta elementos que provam que a teoria literária precisa de uma renovação, uma revolução, assim como a ideia de Aristóteles em dividir a poesia em lírica, elegíaca, épica e dramática. Pessoa quebra esse paradigma, ele prova que a literatura não deve seguir um foco, e muito menos regras, e na arte o que verdadeiramente é uma regra? Ela existe? Deve se seguida?
É apontada, também, a questão da junção de estilos, que se perfaz em um texto literário, não quer dizer que uma epopéia lírica por exemplo não contenham elementos dramáticos, ou elementos épicos, sendo que cada escrita é a manifestação do autor, através de suas palavras, onde o escritor não segue uma linearidade de acontecimentos ou fatos, pois o texto em si conduz o autor a caminhar, não existe um texto pré-formado.

Com a questão da multiplicidade de ideias e opiniões que formam o escritor, não deixará de colocá-los no papel, entra também a questão do criar novas faces, novos rostos, a inovação na escrita, mas para que conceba essa inovação é necessário não abandonar a tradição, é seguir na escrita mesmo de maneiras opostas do que o próprio escritor defende, pois a obra literária é constituída pela tríade: autor, obra e leitor, sendo que um depende do outro, não sendo possível a existência sem esses fatores atrelados.


O que provoca a busca dessa nova concepção é a ideia de personificação, um dos passos para se alcançar é o não egoísmo, onde todas as ideias são postas em mesa para que o próprio poeta escolha, ele experimente, e que a cada processo de uso torne-se para o próprio autor como um desafio, sim, o autor é um experimentador. Comparando com um químico em sua bancada encontra-se diversos produtos e infinitas combinações, e isso que o poeta faz, ele usa as palavras como matéria prima, para construção de sua obra.
Pessoa, cria suas próprias pessoas, seus heterônimos, onde cada um segue uma maneira de escrever, sendo que não abandona a base, a tradição, pois a tradição é o próprio Fernando Pessoa, o escritor o humano. E por trás desses heterônimos ele, apresenta ideias e convicções que as vezes são totalmente contrárias que sua crença, como o poema VIII do livro “Guardador de rebanhos” de Alberto Caeiro, onde há uma grande crítica perante a religiosidade, levantando também questões filosóficas, o próprio autor admite que não é o que prega, ele tem um forte vínculo com o espiritualismo, aconteceu a contradição, pois o recurso de despersonalização é utilizado, o poeta não é único, não é utilizado a sua unicidade, e sim a pluralidade.
Assim como propõe Fernando Pessoa, no poema “Autopsicografia”: O poeta é um fingidor./Finge tão completamente/Que chega a fingir que é dor/A dor que deveras sente. A metalinguagem é bastante presente nas obras de Pessoa, pois ele mostra também em seus escritos o lado humano do escritor, ele fala que ele realmente existe, e seus heterônimos só existem na ficção, e acontece que o poeta finge tão bem que se aproxima da realidade, uma realidade que às vezes é distorcida em textos não literários.
Seguindo o conceito do autor em seu texto, ele defende a pluralidade do poeta, propõe que devemos renovar a cada dia que passa sempre buscando o futuro.
Um dos grandes escritores nacionais que seguiram esse conceito foi Machado de Assis, em suas obras como “Memorial de Aires” é classificado como um romance histórico, um diário, autobiografia. O próprio Machado cria seu alterego o seu outro eu, que no caso é Aires que se dá também o nome do romance. Por outro lado escreveu um conto “As academias de Sião” a história de um jovem rei Kalaphangko e uma concubina Kinnara, eles trocam de corpos experimentam sensações e aventuras em corpos opostos, o conto se aproxima bastante dos contos fantásticos árabes, entra a questão das múltiplas faces do escritor, Machado de Assis não se encaixa em nenhuma escola literária, mas sim ele criou o seu próprio estilo.
Assim como as obras de Fernando Pessoa atualmente vem ganhando espaços distintos, classificadas como frases motivacionais, “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”, fica gravado na mente de quem fala e de quem ouve, mas às vezes esquece que essa frase é proveniente de um texto literário, o poema “Mar português”, esquece a sua fonte, alterando a semântica proposta em todo o poema, um dos fatores que a personificação contribui, o texto alcança dimensões que o próprio autor não é capas de controlar, pois o texto não é escrito para ele e sim para o infinito público.


Mateus André Felipe
mateusdre@hotmail.com

domingo, 6 de março de 2011

O Padre Ateu




Por : Hélio Dehon

Muito antes dos pretensos deístas-iluministas responsáveis pela Revolução Francesa (Voltaire,Russeau,Montesquieu,etc), escreverem algo a respeito de Religião e igualdade entre as pessoas, muito antes dos criadores do comunismo (Marx e Engels) imaginarem uma sociedade desigual devido a alienação do trabalho, houve uma pessoa que inauguraria todo o movimento ateu-materialista-comunista que nossa sociedade moderna conhece. Jean Meslier nasceu e viveu na pequena vila de Etrépigny, França entre os anos de 1664 e 1729.Sem ao menos dispor de uma biblioteca ou ainda de grandes mestres (talvez um pouco de Cartesianismo) de filosofia ou de qualquer outra ciência pós medieval,Meslier discorreu abundantemente sobre os assuntos acima citados. Talvez Meslier tivesse apenas um atributo que lhe conferisse alguma visão religioso-antropológica,ele era PADRE,e não somente padre mas sacerdote responsável pele paróquia da vila em que habitava. Passou toda sua vida procedendo suas homilias para a comunidade, realizando suas missas regulares,captando confissões,pondo em prática os sacramentos e todos os rituais(um tanto quanto macabros e tanatofilicos que norteiam a religião católica), porém com o detalhe de estar se corroendo de culpa por dentro pois sabia que tudo aquilo que falava era o mais puro embuste, e de estar enganando todos aqueles pobres paroquianos que já sofriam a opressão de seus governantes. Mas porque não “saía do armário” ? Pelo simples fato de estar em pleno Séc 17 e isso significaria a sua própria morte! Então, ao se recolher toda noite escrevia aquilo que pensava,e escondia seus escritos, mesmo sabendo que esses escritos se encontrados postumamente , causariam tremendo escândalo na sociedade da época(como causaram),ocasionando a excomunhão do mesmo (o que ocorreu).O padre ateu cagou continuou escrevendo.Seu único medo era de que, como uma mensagem na garrafa no oceano, seus escritos jamais fossem encontrados,coisa que não aconteceu graças a ação dos nomes já citados (Voltaire,Russeau,Montesquieu), à pirataria e clandestinidade literária da época das luzes.
Seus conceitos eram simples e básicos sob a ótica ateu-materialista (pelo menos para os dias de hoje):

Deus - Uma ilusão ou quimera, fruto da imaginação do homem que não apenas o criou mas antropomorfizou-o,deixando-o com todas as suas características.Uma entidade má,vingativa que pune sua criação por motivos pífios como não guardar um dia santo.O céu ou paraíso, uma ilusão , utonia completa,de onde os cristãos almejavam para o pós morte deixando a vida terrena (REAL), a única na ótica do padre,de lado,vivendo na maioria das vezes de forma miserável  imaginando uma compensação futura.

Jesus - Um fanático e enganador,isso é , se é que existiu mesmo! Falacioso que pregava por parábolas, em linguagem retórica. Homem vil e desprezível que viveu e morreu pobre,humilhado e açoitado até acabar pendurado em uma cruz. Hipócrita que se contradiz, disse trazer a paz,porém invoca trazer a espada e botar pai contra filho,marido contra mulher,ou seja , fazer da família nossa maior inimiga. Contesta a parábola da outra face, que por sinal, Meslier comenta que só serviu no passar dos anos para justificar todo o tipo de injustiça social por parte dos governantes (monarcas, no caso da época),pois domava aqueles que eram dominados, pois tal como o nazareno,deveriam suportar todo sortilégio que lhes era imputado.Aliás desse tema Meslier é rigoroso e diz:”meu desejo é ver o último padre da terra ser enforcado nas tripas do último monarca”.(N. do R : Citação usual à Voltaire)

Alma - Não existe, pelo menos do ponto de vista Platônico-cristão.O padre ateu foi um materialista contumaz.Baseado em importantes atomistas clássicos como Demócrito, Meslier ignorava a alma imortal ou eterna, que pós-morte será julgada e se sentará ou não ao lado e Deus pai. Para ele o que existe é a matéria,que se subdividem em partes menores ou átomos,que estão em constante movimento,o que causa as mudanças e todas as ações na natureza. O que vale é a experiência (isso antes do empirismo Britânico),inverte o dualismo cartesiano “penso logo existo” e o transforma em “existo logo penso”, colocando o idealismo num patamar inferior. Primeiro devemos experimentar para depois termos a idéia de algo, abrindo as portas para o método científico futuro.Discorda de todos os filósofos deístas da época como Descartes,Pascal e Malebranche,que segundo ele, tinham uma linha de raciocínio boa mas logo se contradiziam somente para justificar Deus.
Criticou ferrenhamente a coalisão Monarquia-clero, um sempre justificando o outro,pois todo o sacerdote é o representante de Deus na terra,e este abençoa toda a coroação ou posse da monarquia,o governante passa ser legalmente também um tipo de represntante divino em vida.Essa união maléfica e totalmente incoerente para os princípios de qualquer religião que almeja o sumo bem,era a principal causa da miséria humana,pois o pouco que os vassalos ou suseranos produziam,tinham que dar em forma de impostos e que a única forma de liberdade seria a luta das classes menos favorecidas.Assim meslier inaugura a coisificação do trabalho e os princípios do comunismo.
Em resumo Jean meslier foi tudo o que as pessoas só seriam quase 200 anos depois,com coragem e desembaraço e sem meias palavras.Enquanto isso seus contemporâneos e conterrâneos iluministas,diga-se de passagem os únicos lembrados em universidades,livros,revistas especializadas e no dia a dia acadêmico, não passavam de deístas e agnósticos em cima do muro,quase sempre acovardados,como os já citados Russeau e seu teísmo, Voltaire com seu deísmo e Montesquieu com seu cristianismo aberto e tolerante,sem contar com os grandes filósofos Alemães que se seguiram como Hegel,Kant,etc.Nunca chegaram a ter metade da coragem do Hercúleo padre.

Hélio Dehon
ensaiosemanifestos@hotmail.com