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sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

A Lógica do enigma



Por : Carla Ribeiro

O Enigma de Kaspar Hauser , título em português do filme Jeder für sich und Gott gegen alle (1974) do cineasta alemão Werner Herzog. Conta a história verídica de um menino, por volta de seus 16 anos, que apareceu pela primeira vez numa praça de Nuremberg, em maio de 1828. Com uma carta na mão e atônito. Nessa carta a explicação de que até aquele dia Kaspar Hauser fora criado sem nenhum contato humano, em um porão, e apenas uma pessoa tratava dele e lhe trazia alimentos enquanto dormia. Para a sociedade alemã do século XIX  seu comportamento estranho para os padrões sócio-culturais estabelecidos, causava um misto de espanto e interesse.

Seu protetor  e tutor , o criminalista Feuerbach , tenta inserí-lo, e encontra muita dificuldade devido a sua falta de compreensão e percepção sobre as coisas. Apesar da aquisição da linguagem, sua decodificação a cerca da significação do mundo é encarada pela sociedade como uma aberração.  Todas as pessoas da cidade queriam vê-lo. Herzog mostra, em uma das cenas, K. Hauser junto com outros indivíduos, tidos como anormais, um anão, um índio e uma criança autista, em exposição num circo. Devido ao seu déficit cognitivo tudo o assustava, as ruas, as casas, a lógica, movimentos, perspectiva, a fala, pensamentos e pessoas. Com seu olhar ainda não estereotipado ou corrompido, não entendia o papel da mulher na sociedade e questionou :  ”Para que servem as mulheres?”, “Só servem para ficar sentadas?” e “Por que só as permitem cozinhar e fazer crochê?". Aos homens essas eram perguntas sem respostas, visto que na época as mulheres tinham um papel praticamente nulo na sociedade. Kaspar Hauser possuía algumas capacidades especiais interessantes, descritas no filme de Herzog : conseguia enxergar muito longe, no escuro, e sabia tratar os animais, principalmente os pássaros. Ao mesmo tempo tinha medo de galinhas e fugia delas aterrorizado. Numa das cenas, atraído pela chama de uma vela, coloca seu dedo no fogo e, ao sentir dor, aprende que a chama queima.

Quem assiste o filme esperando, a isotopia clássica dos filmes policiais se decepciona. Porém se fizermos a leitura pelo título original do filme " Cada um por si e Deus contra todos" a lógica do enigma e sua profundidade serão bem outra. A época que Kaspar Hauser viveu, século XIX, foi uma fase definida pela perspectiva positivista, evolucionista e desenvolvimentista e estava no auge a concepção de que havia, em desenvolvimento, um paradigma de civilização a ser atingido pela sociedade. E todos os que não condiziam com o arquétipo do homem civilizado eram tidos como ignorantes e incultos. É dentro dessa concepção que K. Hauser deverá ser ajudado a se socializar. No entanto o panorama em que é colocado, apesar de expresso pela linguagem, palavras e signos linguísticos , mantem-se pra ele, indecifrável.
 


Destituído de educação, influência e exemplos, seu recurso principal era a linguagem, pela qual a sociedade tentará fazê-lo conceber aquilo que sua natureza não concebe: a representação. E apesar de conhecer o mundo pela linguagem não é suficiente para que faça as associações necessárias e verbalize os conteúdos pensados "talvez por que a significação do mundo deve irromper antes mesmo da codificação linguística com que recordamos : os significados já vão sendo desenhados na própria percepção/cognição da realidade" (Blikstein, 1983). Como seria o entendimento do significado das palavras e o que elas representam se Kaspar não passou por uma demanda de instrução e socialização exigidos para a compreensão da representação dos signos? Kaspar não vivenciou a construção semiológica, que se dá na infância, o que estimula um processo de abstração e a ilusão da realidade. As coisas e objetos não eram percebidos por ele como a prática social expunha previamente, ou seja, estava sem "filtros" e estereotipias culturais que adaptam a percepção e o conhecimento, o que são acrescentados pela linguagem. Desse modo a relação entre práticas culturais, percepção e linguagem são os reguladores no sistema de conhecimento da realidade. E ele era desprovido do conhecimento dessa relação.

Como Kaspar decodifica o mundo à sua maneira fica claro que está desequilibrado de uma prática social necessária para se interligar e interpretar a realidade. Passa então a ser visto como impróprio e inadequado pois enxerga a realidade com olhos subversivos - não vê a realidade da forma que os outros esperam - não aceita e nega a ordem social vigente. Nesse sentido, Blikstein (1983) afirma que o que concebemos como realidade é apenas uma ilusão, pois a práxis opera em nosso sistema perceptual, ensinando-nos a "ver" o mundo com os "óculos sociais" e gerando conteúdos visuais, tácteis, olfativos e gustativos que aceitamos como naturais. Ele não via com naturalidade essa "verdade".

Roland Barthes semiólogo e filósofo francês afirma que : "toda a linguagem é fascista. À medida que a linguagem aprisiona, cria estereótipos, banaliza os pensamentos ela passa a exercer um controle autocrático. As práticas sociais convivem com a língua e com a percepção do mundo, uma é tributária da outra em um verdadeiro círculo vicioso. Então, diria, que a língua domina o homem." E como Kaspar Hauser não conseguia fazer essas associações impostas pela sociedade, criando sua própria práxis libertadora, talvez esse tenha sido o motivo de sua morte.

Kaspar Hauser foi assassinado com uma facada no peito em 1833 sob circunstâncias nunca esclarecidas, e o assassino jamais descoberto - Herzog sugere no seu filme que K. Hauser foi morto pelo seu próprio pai - seu cérebro foi dissecado e as conclusões logo estabelecidas após os médicos detectarem uma simples anomalia congênita. Caso encerrado. Na lápide de Kaspar Hauser, no cemitério de Ansbach ,há uma inscrição que diz: "Hic occultus occultu uccisus est." Quer dizer: "Aqui jaz um desconhecido assassinado por um desconhecido." Nada resume melhor o misterioso trajeto da vida e morte deste homem.

Carla Ribeiro

N. do R : Para saber mais sobre Kaspar Hauser


6 comentários:

  1. olha, nao tinha ouvido falar do filme ainda. Parece ate meio lado B. Realmente interessante. Hoje em dia ainda temos essas "exclusões" mesmo que de outras formas, etc.

    Mas a cada seculo a sociedade ainda arranja uma maneira de menosprezar ou rotular alguem que pensa diferente ou age diferente.

    Acho q nunca mudaremos. Bom que diga Cristo. Mesmo eu sabendo q foram outras circunstancias q o levaram pra cruz. Mas enfim, muito esclarecedor o texto!

    ;)

    http://www.estilodistinto.com

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  2. Ótimo o texto Carla, Parabéns!
    Abraços e Ótima Sexta.

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  3. menina Carlinha você é boa... Opa, também como cinéfila, hahaha!

    Bjs.

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  4. Carlinha amaaada!
    Bacanérrimo o texto. Deixa eu te contar um negocinho rsrs: não ando dando conta de um blog de cada amado, imagine dois, tres???? Cê vai continuar a postar lá no Petit, né? E já peço desculpas por não estar aqui...
    Beijuuss e sucesso a esse espaço e proposta!

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  5. Olá Carla

    Fiquei curiosa com o filme. Tenho que o ver.

    A exclusão social que continua a ser um drama nos nossos dias.

    Bjs.

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  6. Em primeiro lugar, parabens pela resenha que vc fez do filme. Seu texto está maravilhoso, muitissimo bem escrito.
    Achei demais interessante o tema do filme. Um daqueles filmes que vale a pena ver, com certeza.
    Beijos
    ursulaferraricoach.wordpress.com

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