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sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

A Concepção Junguiana de Deus





Por : Lord Vader

Nos primeiros anos do século XX , Freud criou a sua teoria psícanalítica , com base em sua experiência no tratamento de pacientes com distúrbios mentais , aliada a sua impressionante intuição . Surgia assim , pela primeira vez , uma ciência legitimada que explicava os nossos obscuros processos mentais , assim como a própria motivação do comportamento humano . Após dez anos de ostracismo , as idéias de Freud começaram a chamar a atenção de um grupo de médicos suiços , entre eles um inquieto e brilhante jovem , chamado Carl Jung , que viria a se tornar o principal pupilo de Freud , a pessoa sobre a qual repousavam as suas esperanças na continuidade do seu trabalho.
Mas o inquieto Jung logo romperia com Freud , pois considerava o modelo sexual do seu mestre monótono e reducionista , e queria ampliar as possibilidades da psicanálise em outras direções. Após um período de profundo luto e reflexão por ter deixado Freud para trás , emergiu de um exílio voluntário com um modelo psicanalítico próprio , no qual a proposta de estruturação da psique humana era completamente nova .


Para ele , a mente (ou psique , ou alma - no sentido psicanalítico) era dividida entre consciente e inconsciente , da mesma forma que o modelo freudiano . Porém , para Jung , existia no centro da psique , uma pequena esfera , um ponto fundamental , regulador , coordenador , conciliador do todo psíquico , que ele chamou de self , ou si-mesmo . Ao mesmo tempo que é um ponto no centro da alma (psicanalitica) , é também a sua totalidade . A totalidade da esfera psíquica , o responsável pela integração das partes conflitantes de nossa mente , sendo esta integração um processo positivo que ele chamaria de individuação , algo como um auto-conhecimento pleno , um estado elevado de consciencia onde não haveria mais conflito entre o consciente e inconsciente , um estado , por assim dizer , "transcendente". A partir do conceito do self , do si-mesmo , surgiria o conceito Junguiano de Deus.
Ao contrário de um Deus exterior , cósmico , transcedental de fato , criador , Jung postulava que o conceito de Deus na verdade eclodiu de dentro da psique humana , desde tempos muito remotos , quando o self foi projetado para fora da mente na forma de arquétipos que se institucionalizariam culturalmente através de muitas representações , desde a mais primitiva , o sol , esférico como o self , e adorado como "Deus" por nossos ancestrais , passando por incontáveis mitos , em diversas culturas : Osíris , Krishna , Buda , Jesus. Jung era especialmente interessado nas representações em forma de mandala , comum a diversas culturas e períodos históricos distintos , como imagens de expressão do self originárias do inconsciente.




Não importa a forma que a projeção arquetípica tomou , mas sim o processo psicológico com que o homem produz os seus deuses . Para Jung este seria um processo natural da mente humana , e até saudável , visto que possibilita a individuação durante a experiência religiosa , o que equivaleria a uma catarse psicanalítica . São comuns os relatos de religiosos que alcançaram durante determinado culto a "iluminação" , o "equilíbrio" , a "cura espiritual" , ou mesmo , numa expressão psicanaliticamente muito emblemática , "se encontraram"  , ou ainda que "sentiram a presença"  de Deus . Diversas definições para o processo da individuação .

Assim , Jung criou uma formulação psicológica da religiosidade ao atribuir ao self a origem das imagens sagradas , imagens estas que invadem o indivíduo religioso com uma força redentora e de caráter indefinível.
A idéia de que não há um Deus "do lado de fora" só foi interessante para os que possuem uma religiosidade "interna" e pessoal , ou mesmo para os ateus e agnósticos que possuiriam um argumento infalível para reduzir a pó milênios de crenças e religiões. Porém , para os seguidores das religiões institucionalizadas a idéia não foi bem aceita ,e Jung não tardou a ser taxado de herege.
Curiosamente , Jung , filho de um pastor protestante e portanto emocionalmente ligado à religião , jamais defendeu com o rigor esperado o seu ponto de vista do conceito arquetípico de Deus , pelo menos no que diz respeito à sua vida pessoal , onde este tema provavelmente suscitava paixões . Embora deixasse claro que se preocupava mais com um Deus psíquico e interior do que com um Deus criador , jamais manifestou de forma completamente clara se o seu Deus psíquico era uma "imagem de Deus" apenas , ou um Deus de fato . Quando perguntado se acreditava ou não em Deus, respondia " Eu não acredito , eu sei " , sem deixar evidente se estava mesmo se referindo ao self e à sua propria individuação .
Não há duvidas de que Jung foi um pensador brilhante , mas a sua posição pouco clara , ou muito flexível no campo da religiosidade (ao contrário de Freud) acabou criando uma associação de sua psicanálise com uma idéia (equivocada) de misticismo , aos olhos do senso comum , abrindo caminhos para alguns "terapeutas" intulados Junguianos (e para horror dos autênticos) tomarem liberdades nada ortodoxas de seus métodos , que estariam mais proximos do charlatanismo do que do rigor acadêmico que Jung tanto estimava.



Lord Vader
ensaiosemanifestos@hotmail.com


3 comentários:

  1. Uma construção que me agrada!
    ... e me dá uma certa paz.

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  2. Gosto desta forma de pensar, mas todos à minha volta a detestam. Preferem a neurologia e o estudo dos comportamentos neurológicos. É pena, sinto-me de outro planeta.

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  3. Prefiro visão de Nietzsche que Jung repudiou: O Deus repressor e punitivo do cristianismo está morto. Deus é vida!

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