Ensaio : Texto literário breve , entre o poético e o didático , expondo idéias , críticas e reflexões morais e/ou filosóficas acerca de certo tema. Defesa de um ponto de vista pessoal e subjetivo sobre um tema , sem que se paute em formalidades como documentos ou provas empíricas ou dedutivas.
Manifesto : Declaração publica de razões que justifiquem certos atos ou fundamentos. Ato de manifestar um desejo , atitude ou repúdio.

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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O Elogio da Loucura e o ataque ao Cristianismo



Por : Lord Vader

Em virtude de trágicas circunstâncias históricas , durante a idade média , o pensamento europeu esteve sob a tutela da igreja católica por centenas de anos , e apenas em seu período final , durante o renascimento cultural , o antropocentrismo trouxe de novo o homem para o centro do pensamento e da vida . Era essa a proposta do humanismo , corrente filosófica que , em virtude de sua aversão ao sobrenatural e ao transcendente , pode ser considerada o marco zero que viria originar diversas vertentes posteriores do pensamento humano : iluminismo , racionalismo , empirismo , ateismo e marxismo , apenas para citar alguns.
Foi dos primórdios do humanismo que emergiu a figura deste pensador satírico , ácido , simpático e sobretudo iconoclasta : Erasmo de Rotterdam . Notório humanista , Erasmo foi um grande crítico dos absurdos de seu tempo , a virada dos século XV e XVI , quando a igreja ainda dava as cartas dentro da organização social . Surpreendentemente Erasmo era ele mesmo um teólogo , porém a sua ocupação deve ser interpretada mais como um resultado das circunstâncias do que como uma vocação propriamente dita .

Tendo se tornado órfão muito cedo , acabou dentro de um monastério , assim como muitos meninos de então . Nos seus anos de seminário , mesmo sabendo que não tinha uma vocação verdadeira para a vida de sacerdote , levou a coisa adiante para não decepcionar a sua família , passando a maior parte do tempo se dedicando a arte e a pintura . Durante a sua formação , observou atentamente o estilo de vida dos eclesiásticos , percebendo a discrepância entre suas atitudes na vida cotidiana e seus discursos santos.
Ao concluir sua formação , conseguiu uma dispensa para não celebrar missas ou serviços religiosos. Iria aproveitar a oportunidade de sua posição e se dedicar unicamente aos estudos dali em diante . Por conta de seu temperamento curioso e introspectivo iria devorar com avidez diversos exemplares , livros e tratados , desde a antiguidade clássica , atingindo então uma notável erudição , assim como uma grande autoridade intelectual . Dessa maneira , passou a ser progressivamente requisitado por personalidades ilustres e magnatas , que desejavam a companhia de um estudioso tão ilustre .
Foram exatamente estas pessoas , poderosos mecenas , que iriam custeá-lo e permitir o seu continuado aprimoramento por diversos centros de estudo pela Europa.

De sua pena saiu uma pequena (em tamanho) jóia : O Elogio da Loucura . Um tratado , sagaz e provocativo , cuja leitura me agradou e surpreendeu bastante . Escrito pela "deusa" loucura em primeira pessoa , e repleto de referências , o texto faz uma arrasadora crítica ao status quo de seu tempo (e de muito adiante !) , atacando sobretudo a medíocridade da existência , ao afirmar , irônicamente , que todas as ações do homem não passam de simples loucura , tolice .
Erasmo compara a humanidade à um enxame de insetos em combate mútuo , constantemente nascendo , caindo e morrendo . Um animal insignificante e condenado à uma vida breve e ridícula  , à merce de guerras , epidemias e catástrofes . Afirma categoricamente que os ignorantes são mais felizes e bem sucedidos , já que aqueles que escolhem uma cultura autêntica se tornam cientes de sua triste realidade , se transformando em seres frágeis e tristes .
Segue tecendo comentários mordazes sobre o estado , sobre o casamento , os deveres de esposa , os filósofos e tantas outras pequenas digressões , até chegar , ao ponto mais interessante e atraente da obra ao meu ver : o ataque ao catolicismo , não apenas no aspecto de religião institucionalizada , mas também ao próprio cristianismo em si .





 Erasmo não poupou nem a figura papal , pelo contrário , afirma que o papa nem sequer é salvo por Cristo pois caso o fosse doaria a sua imensa riqueza e não cobraria impostos e taxações sob as indulgências . Os sacerdotes para ele não passavam de amantes da boa vida , soberbos admiradores da honraria e do dinheiro. A Igreja , como intituição , Erasmo acusa de estar muito distante da proposta simples original , e da maneira como se encontrava , assumia um papel de vilã que lucra demais com guerras , rituais e cerimônias desnecessárias . No campo das crenças pessoais , ( de maneira tão relevante ainda atualmente ) , afirma que crer em almas penadas , inferno , milagres , e demais superstições são hábitos de pessoas ignorantes e sem instrução . De loucos .
Acusa os teólogos (inclusive o sacrossanto São Paulo) de manipularem as escrituras ao seu bel prazer e interesses próprios , até o ponto de se contradizerem. Citando o mesmo São Paulo , garante que a loucura não escapa nem ao próprio Deus ("o insensato de Deus é mais sábio do que os homens"). Erasmo cita algumas passagens do novo testamento que testificam o apreço de Deus pai e seu filho Cristo pelo vulgo ignorante . Ressalta que Cristo chama de ovelhas seus seguidores destinados à vida eterna , lembrando que não existe animal mais estúpido que este . Cita Aristóteles e sua expressão "caráter de ovelha" , para designar os inéptos e obstusos , lembrando depois que Cristo se declara o pastor deste rebanho.
Erasmo nos lembra além disso que Cristo valeu-se de apóstolos grosseiros e ignorantes  , aos quais exortava à seguirem o exemplo dos lírios , do grão de mostarda e dos passarinhos , seres completamente desprovidos de inteligência  . Para ele , no mesmo princípio se inspira Deus , que proibiu o fruto da árvore da vida , como se o conhecimento fosse o veneno da felicidade .
Com uma observação históricamente relevante e importante , nos lembra que o cristianismo tem um forte ponto de contato com o platonismo : ambos acreditam que a alma está presa ao corpo , num empecilho à contemplação da verdade . Com base na mesma idéia Nietzsche iria , séculos depois , discorrer longamente sobre o caráter necrofílico do cristianismo no seu sublime "Anticristo" .

As idéias de Erasmo causaram em sua época consternação e estranheza , e , dizem , serviram como fonte de inspiração à reforma protestante liderado por Lutero , ícone da cultura alemã e notório e odioso anti-semita.
Sem tomar partido , Erasmo seguiu adiante (mais tarde defenderia o catolicismo) , acusado de heresia mesmo sendo um idealista do evangelho e ainda cristão à sua maneira (um proto-deísta ?) , refletindo , questionando e evidênciando a demência dos humanos . Erasmo tocou em questões profundamente relevantes e dolorosas ao seu tempo , e que lamentavelmente , continuam vivas e atuais  , tanto quanto foram no tempo deste notável humanista.


Lord Vader
ensaiosemanifestos@hotmail.com


sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

A Concepção Junguiana de Deus





Por : Lord Vader

Nos primeiros anos do século XX , Freud criou a sua teoria psícanalítica , com base em sua experiência no tratamento de pacientes com distúrbios mentais , aliada a sua impressionante intuição . Surgia assim , pela primeira vez , uma ciência legitimada que explicava os nossos obscuros processos mentais , assim como a própria motivação do comportamento humano . Após dez anos de ostracismo , as idéias de Freud começaram a chamar a atenção de um grupo de médicos suiços , entre eles um inquieto e brilhante jovem , chamado Carl Jung , que viria a se tornar o principal pupilo de Freud , a pessoa sobre a qual repousavam as suas esperanças na continuidade do seu trabalho.
Mas o inquieto Jung logo romperia com Freud , pois considerava o modelo sexual do seu mestre monótono e reducionista , e queria ampliar as possibilidades da psicanálise em outras direções. Após um período de profundo luto e reflexão por ter deixado Freud para trás , emergiu de um exílio voluntário com um modelo psicanalítico próprio , no qual a proposta de estruturação da psique humana era completamente nova .


Para ele , a mente (ou psique , ou alma - no sentido psicanalítico) era dividida entre consciente e inconsciente , da mesma forma que o modelo freudiano . Porém , para Jung , existia no centro da psique , uma pequena esfera , um ponto fundamental , regulador , coordenador , conciliador do todo psíquico , que ele chamou de self , ou si-mesmo . Ao mesmo tempo que é um ponto no centro da alma (psicanalitica) , é também a sua totalidade . A totalidade da esfera psíquica , o responsável pela integração das partes conflitantes de nossa mente , sendo esta integração um processo positivo que ele chamaria de individuação , algo como um auto-conhecimento pleno , um estado elevado de consciencia onde não haveria mais conflito entre o consciente e inconsciente , um estado , por assim dizer , "transcendente". A partir do conceito do self , do si-mesmo , surgiria o conceito Junguiano de Deus.
Ao contrário de um Deus exterior , cósmico , transcedental de fato , criador , Jung postulava que o conceito de Deus na verdade eclodiu de dentro da psique humana , desde tempos muito remotos , quando o self foi projetado para fora da mente na forma de arquétipos que se institucionalizariam culturalmente através de muitas representações , desde a mais primitiva , o sol , esférico como o self , e adorado como "Deus" por nossos ancestrais , passando por incontáveis mitos , em diversas culturas : Osíris , Krishna , Buda , Jesus. Jung era especialmente interessado nas representações em forma de mandala , comum a diversas culturas e períodos históricos distintos , como imagens de expressão do self originárias do inconsciente.




Não importa a forma que a projeção arquetípica tomou , mas sim o processo psicológico com que o homem produz os seus deuses . Para Jung este seria um processo natural da mente humana , e até saudável , visto que possibilita a individuação durante a experiência religiosa , o que equivaleria a uma catarse psicanalítica . São comuns os relatos de religiosos que alcançaram durante determinado culto a "iluminação" , o "equilíbrio" , a "cura espiritual" , ou mesmo , numa expressão psicanaliticamente muito emblemática , "se encontraram"  , ou ainda que "sentiram a presença"  de Deus . Diversas definições para o processo da individuação .

Assim , Jung criou uma formulação psicológica da religiosidade ao atribuir ao self a origem das imagens sagradas , imagens estas que invadem o indivíduo religioso com uma força redentora e de caráter indefinível.
A idéia de que não há um Deus "do lado de fora" só foi interessante para os que possuem uma religiosidade "interna" e pessoal , ou mesmo para os ateus e agnósticos que possuiriam um argumento infalível para reduzir a pó milênios de crenças e religiões. Porém , para os seguidores das religiões institucionalizadas a idéia não foi bem aceita ,e Jung não tardou a ser taxado de herege.
Curiosamente , Jung , filho de um pastor protestante e portanto emocionalmente ligado à religião , jamais defendeu com o rigor esperado o seu ponto de vista do conceito arquetípico de Deus , pelo menos no que diz respeito à sua vida pessoal , onde este tema provavelmente suscitava paixões . Embora deixasse claro que se preocupava mais com um Deus psíquico e interior do que com um Deus criador , jamais manifestou de forma completamente clara se o seu Deus psíquico era uma "imagem de Deus" apenas , ou um Deus de fato . Quando perguntado se acreditava ou não em Deus, respondia " Eu não acredito , eu sei " , sem deixar evidente se estava mesmo se referindo ao self e à sua propria individuação .
Não há duvidas de que Jung foi um pensador brilhante , mas a sua posição pouco clara , ou muito flexível no campo da religiosidade (ao contrário de Freud) acabou criando uma associação de sua psicanálise com uma idéia (equivocada) de misticismo , aos olhos do senso comum , abrindo caminhos para alguns "terapeutas" intulados Junguianos (e para horror dos autênticos) tomarem liberdades nada ortodoxas de seus métodos , que estariam mais proximos do charlatanismo do que do rigor acadêmico que Jung tanto estimava.



Lord Vader
ensaiosemanifestos@hotmail.com


A Lógica do enigma



Por : Carla Ribeiro

O Enigma de Kaspar Hauser , título em português do filme Jeder für sich und Gott gegen alle (1974) do cineasta alemão Werner Herzog. Conta a história verídica de um menino, por volta de seus 16 anos, que apareceu pela primeira vez numa praça de Nuremberg, em maio de 1828. Com uma carta na mão e atônito. Nessa carta a explicação de que até aquele dia Kaspar Hauser fora criado sem nenhum contato humano, em um porão, e apenas uma pessoa tratava dele e lhe trazia alimentos enquanto dormia. Para a sociedade alemã do século XIX  seu comportamento estranho para os padrões sócio-culturais estabelecidos, causava um misto de espanto e interesse.

Seu protetor  e tutor , o criminalista Feuerbach , tenta inserí-lo, e encontra muita dificuldade devido a sua falta de compreensão e percepção sobre as coisas. Apesar da aquisição da linguagem, sua decodificação a cerca da significação do mundo é encarada pela sociedade como uma aberração.  Todas as pessoas da cidade queriam vê-lo. Herzog mostra, em uma das cenas, K. Hauser junto com outros indivíduos, tidos como anormais, um anão, um índio e uma criança autista, em exposição num circo. Devido ao seu déficit cognitivo tudo o assustava, as ruas, as casas, a lógica, movimentos, perspectiva, a fala, pensamentos e pessoas. Com seu olhar ainda não estereotipado ou corrompido, não entendia o papel da mulher na sociedade e questionou :  ”Para que servem as mulheres?”, “Só servem para ficar sentadas?” e “Por que só as permitem cozinhar e fazer crochê?". Aos homens essas eram perguntas sem respostas, visto que na época as mulheres tinham um papel praticamente nulo na sociedade. Kaspar Hauser possuía algumas capacidades especiais interessantes, descritas no filme de Herzog : conseguia enxergar muito longe, no escuro, e sabia tratar os animais, principalmente os pássaros. Ao mesmo tempo tinha medo de galinhas e fugia delas aterrorizado. Numa das cenas, atraído pela chama de uma vela, coloca seu dedo no fogo e, ao sentir dor, aprende que a chama queima.

Quem assiste o filme esperando, a isotopia clássica dos filmes policiais se decepciona. Porém se fizermos a leitura pelo título original do filme " Cada um por si e Deus contra todos" a lógica do enigma e sua profundidade serão bem outra. A época que Kaspar Hauser viveu, século XIX, foi uma fase definida pela perspectiva positivista, evolucionista e desenvolvimentista e estava no auge a concepção de que havia, em desenvolvimento, um paradigma de civilização a ser atingido pela sociedade. E todos os que não condiziam com o arquétipo do homem civilizado eram tidos como ignorantes e incultos. É dentro dessa concepção que K. Hauser deverá ser ajudado a se socializar. No entanto o panorama em que é colocado, apesar de expresso pela linguagem, palavras e signos linguísticos , mantem-se pra ele, indecifrável.
 


Destituído de educação, influência e exemplos, seu recurso principal era a linguagem, pela qual a sociedade tentará fazê-lo conceber aquilo que sua natureza não concebe: a representação. E apesar de conhecer o mundo pela linguagem não é suficiente para que faça as associações necessárias e verbalize os conteúdos pensados "talvez por que a significação do mundo deve irromper antes mesmo da codificação linguística com que recordamos : os significados já vão sendo desenhados na própria percepção/cognição da realidade" (Blikstein, 1983). Como seria o entendimento do significado das palavras e o que elas representam se Kaspar não passou por uma demanda de instrução e socialização exigidos para a compreensão da representação dos signos? Kaspar não vivenciou a construção semiológica, que se dá na infância, o que estimula um processo de abstração e a ilusão da realidade. As coisas e objetos não eram percebidos por ele como a prática social expunha previamente, ou seja, estava sem "filtros" e estereotipias culturais que adaptam a percepção e o conhecimento, o que são acrescentados pela linguagem. Desse modo a relação entre práticas culturais, percepção e linguagem são os reguladores no sistema de conhecimento da realidade. E ele era desprovido do conhecimento dessa relação.

Como Kaspar decodifica o mundo à sua maneira fica claro que está desequilibrado de uma prática social necessária para se interligar e interpretar a realidade. Passa então a ser visto como impróprio e inadequado pois enxerga a realidade com olhos subversivos - não vê a realidade da forma que os outros esperam - não aceita e nega a ordem social vigente. Nesse sentido, Blikstein (1983) afirma que o que concebemos como realidade é apenas uma ilusão, pois a práxis opera em nosso sistema perceptual, ensinando-nos a "ver" o mundo com os "óculos sociais" e gerando conteúdos visuais, tácteis, olfativos e gustativos que aceitamos como naturais. Ele não via com naturalidade essa "verdade".

Roland Barthes semiólogo e filósofo francês afirma que : "toda a linguagem é fascista. À medida que a linguagem aprisiona, cria estereótipos, banaliza os pensamentos ela passa a exercer um controle autocrático. As práticas sociais convivem com a língua e com a percepção do mundo, uma é tributária da outra em um verdadeiro círculo vicioso. Então, diria, que a língua domina o homem." E como Kaspar Hauser não conseguia fazer essas associações impostas pela sociedade, criando sua própria práxis libertadora, talvez esse tenha sido o motivo de sua morte.

Kaspar Hauser foi assassinado com uma facada no peito em 1833 sob circunstâncias nunca esclarecidas, e o assassino jamais descoberto - Herzog sugere no seu filme que K. Hauser foi morto pelo seu próprio pai - seu cérebro foi dissecado e as conclusões logo estabelecidas após os médicos detectarem uma simples anomalia congênita. Caso encerrado. Na lápide de Kaspar Hauser, no cemitério de Ansbach ,há uma inscrição que diz: "Hic occultus occultu uccisus est." Quer dizer: "Aqui jaz um desconhecido assassinado por um desconhecido." Nada resume melhor o misterioso trajeto da vida e morte deste homem.

Carla Ribeiro

N. do R : Para saber mais sobre Kaspar Hauser


terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

O legado ironico do deus imperfeito


Por : Lord Vader

George Washington é parte inseparável da história americana , chamado , não sem motivo , de o "Pai da Pátria" , tamanha a sua participação na guerra da Independência dos Estados Unidos . O seu impressionante legado parece não ter fim : são incontáveis as cidades , parques , pontes , escolas , acidentes naturais , ruas que levam o seu nome . Seu rosto estampa , muito icônicamente , a cédula de um dólar , além de diversos selos postais. A própria capital do país , aquela agradável monstruosidade greco-romana , foi batizada em sua homenagem.
Mas existe um outro legado igualmente interessante envolvendo seu nome : mais de 90 % dos americanos batizados de Washington são negros . De fato Washington é o sobrenome mais comum dentro da população dos negros americanos. O fenômeno é tão extenso que na América de hoje, se alguém falar ao telefone com algum Washington que não conhece pessoalmente , certamente presumirá tratar-se de alguém negro. Na verdade muitos Washingtons americanos ficam surpresos ao descobrirem que existem pessoas brancas com este mesmo nome , e que sim , apenas por este fato , também sofrem discriminação dentro da racialmente complexa sociedade americana .
Sendo descendente direto de uma linhagem de ingleses , George Washington possuia a pele clara e os cabelos ruivos , e certamente o critério racial não foi o motivador desta avalanche de homenagens por parte dos negros americanos , ou , como eles medonhamente gostam de chamar/serem chamados por lá : africanos-americanos , um termo politicamente correto mas que no final das contas apenas evidência o quanto a questão racial é delicada dentro da nação mais poderosa do mundo.
Mas não era apenas a sua etnia que o distanciava dos negros . Washington foi um proprietário de escravos desde a idade de 11 anos (e o seria por toda a sua vida) , e em termos reais a escravidão era a base de sua fortuna , já que era um grande latifundiário que não poderia abrir mão desta cruel conveniência .





Embora tenha sido considerado um bom senhor de escravos (os alimentava dignamente e oferecia cuidados de saúde) , era comum em seus domínios o castigo físico e demais punições , como era costume na época . Em uma oportunidade Washington inclusive abusou de seu poder de presidente para recuperar um escravo fugitivo. Ao longo de sua vida Washington chegou a revelar para amigos intimos a sua objeção à escravidão , o que seria motivado não por razões nobres , mas simplesmente pelo fato de ter se tornado economicamente custoso manter um escravo após a guerra de independência . Nos
ultimos anos de sua vida proibiu a venda de escravos de sua propriedade sob o pretexto de não separar as famílias , e deixou em seu testamento o desejo de libertar suas centenas de servos apenas depois da sua morte e da morte de sua esposa , o que em termos práticos significa o mesmo que jamais ter tomado esta atitude.
Embora a relação conflitante de Washington com a escravidão jamais tenha sido segredo algum para ninguém , ainda assim , e desde muito cedo , os negros americanos o homenageiam ao batizar os seus filhos . O fato é que os negros americanos só puderam ser dignificados com um nome próprio , muitos anos mais tarde , apenas depois da guerra civíl americana , portanto tempo suficiente para que o mito de George Washington fosse disseminado e institucionalizado ao ponto de toda uma geração de negros resolver afirmar o seu status de americano "de fato" ao adotar e batizar seus filhos com o nome do pai da pátria que de agora em diante , oficialmente , fariam parte. Estava então estabelecida a ironia .

George Washington é por vezes satanizado , chamado de deus imperfeito por historiadores modernos que insistem no equívoco de julgar atitudes passadas sob o código de ética vigente em nossos dias . Heróico ou revolucionário , Washington foi antes de tudo um homem do seu tempo , e assim como muitos outros presidentes americanos , e como todos os demais latifundiários e influentes de sua geração , possuia escravos , muitos deles .
Talvez todo o ressentimento não declarado esteja no fato do tão festejado pai da nação jamais ter se manifestado publicamente contra a maior ferida histórica da sociedade americana , que ecoa violentamente até os nossos dias : a escravidão . O ressentimento pode ser ampliado ao se levar em conta que jamais o fez por medo que sua então jovem republica se fragmentasse por conta da questão escravocata , num prenúncio do pragmatismo que viria a determinar os rumos de uma nação que parece estar condenada a viver eternamente entre o sagrado e o profano.



Lord Vader
ensaiosemanifestos@hotmail.com