Ensaio : Texto literário breve , entre o poético e o didático , expondo idéias , críticas e reflexões morais e/ou filosóficas acerca de certo tema. Defesa de um ponto de vista pessoal e subjetivo sobre um tema , sem que se paute em formalidades como documentos ou provas empíricas ou dedutivas.
Manifesto : Declaração publica de razões que justifiquem certos atos ou fundamentos. Ato de manifestar um desejo , atitude ou repúdio.

O Blog é aberto a todos que quiserem participar. Envie o seu ensaio ou manifesto para ensaiosemanifestos@hotmail.com , não há restrições quanto a temas ou conteúdo , desde que tenha qualidade será publicado , com o nome do autor responsável e um endereço de e-mail para contato. Se preferir participe opinando : adore , deteste , apedreje ou insense.


sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

O Motivo da Criança Divina



Por: Lord Vader

Ao longo de todo o curso da humanidade, um determinado motivo frequentemente surge em diversas manifestações folclóricas e culturais, lendas, mitos, religiões e mais recentemente, em sua forma moderna, ou seja, na cultura pop. É o motivo da criança-divina. Nós humanos somos simplesmente fascinados pelo motivo, mas o que quase nunca nos ocorre entretanto é que tal motivo é na verdade a expressão de um elemento inato do psiquismo, presente em todos os seres humanos. Ou seja, trata-se de um arquétipo, conceito introduzido dentro da psicanálise por Jung, o célebre psiquiatra suíço e enfant terrible de Freud.




Os arquétipos são nada mais do que elementos presentes em nossa psique primitiva (ou inconsciente coletivo, isto é, a porção do inconsciente comum a todos), cujas raízes estão nas experiências vividas por incontáveis gerações ao longo do curso de evolução da espécie, de modo que acabaram por tornar-se uma porção atávica do nosso psiquismo. Assim, os humanos nascem com um grande número de arquétipos herdados, da mesma forma como os patos sabem que precisam migrar para o sul no próximo inverno sem que ninguém os ensine o caminho.

Este arquétipo foi moldando-se no psiquismo da humanidade à medida que, e porque, todos os humanos, sem excessão, ao longo de toda nossa linha ancestral, foram crianças. Todos os desejos, necessidades, conflitos e dificuldades infantis foram igualmente por todos vivenciados. Sendo assim, muitas idéias acabam ligando-se de forma indelével e irremediável à figura da criança, por associação. De fato, ao nascermos e nos desenvolvermos, isto é, até adquirirmos a noção de nosso lugar no mundo, é preciso que seja superada uma verdadeira corrida de obstáculos existênciais, que deixou marcas permanentes no aparelho psiquico da espécie.



A começar pelo nascimento, via de regra difícil, fruto de uma concepção "desconhecida", entendida inconscientemente como "miraculosa", passando-se pelo desamparo da primeira infância, quando o bebê, duramente se dá conta que não é um espelho de sua mãe, mas sim uma entidade autônoma que está sozinha no mundo. A seguir, uma avalanche de medos, dúvidas, desejos, sensações e descobertas desconcertantes e desconhecidas irá permear a sua vida, até que, finalmente, emerge dali, do meio do caos, um indivíduo, vitorioso em sua jornada.

"Criança" assumirá então, dentro do inconsciente, o significa de algo que se desenvolveu rumo à autonomia, e através de articulações simbólicas, significará muito mais do que isso. A admirável criancinha, vencedora de todas as adversidades, é entendida psiquicamente como "menor do que pequeno e no entanto maior do que grande". Um herói, e porque não, um deus, invencível e possuidora de forças que ultrapassam muito a medida humana. Um ser tão pequeno e frágil, mas dotado de uma grande capacidade e sabedoria.

O Motivo da criança, como pequena, porém profundamente sábia, corajosa, forte, poderosa, deusa, notável, redentora,misteriosa etc., vem, desde tempos imemoriais, repetidamente sendo projetada a partir do inconsciente humano, numa linha deslizante, que, sempre a partir do arquétipo, nos trouxe personagens tão prezados dentro do imaginário humano como: Eros(o cupido) - e os anjinhos em geral, o menino Jesus, elfos, duendes e demais "homenzinhos" personificadores das forças da natureza, os sete anões, o pequeno polegar, homúnculos, pequenos animais sábios e falantes, e, mais recentemente, os extra-terrestres, o mestre dos magos, o "menino-deus de um corpo azul dourado", Mestre Yoda,etc., e até mesmo, Lisa Simpson, Mafalda e Calvin. Todas representações deslocadas e disfarçadas da mesma idéia básica. Não é raro encontrarem-se pessoas que tenham medo de crianças, por identificá-las com o misterioso arquétipo.





O motivo da criança não deve ser confundido com a percepção da criança real. Trata-se de uma representação, um meio de expressão de um fato mental escrito no inconsciente. A representação mitológica da criança não é de forma alguma uma cópia da "criança" empirica, mas um símbolo fácil de ser reconhecido como tal: trata-se de uma criança divina, prodigiosa, não precisamente humana, gerada, nascida criada em circunstâncias totalmente extraordinárias. Considero, humildemente, o conceito de arquétipo e inconsciente coletivo, a maior contribuição de Jung ao campo psicanalítico, fato que, o próprio Freud precisou reconhecer, ainda que em seu ensaio póstumo, "Moisés e o Monoteísmo".


Lord Vader

ensaiosemanifestos@hotmail.com



quarta-feira, 18 de maio de 2011

A triste discussão sobre o Código Florestal




Por : Edson Struminski

Eu não ia me envolver nas discussões sobre a revisão do Código Florestal, pois elas me lembram da existência dos atrasos que ainda teimam em existir no nosso país, como os  emperros da reforma agrária, os resquícios de escravidão em rincões do país, ou aqueles métodos de exploração da natureza do século XIX que ainda são usados em pleno século XXI, como latifundios pouco produtivos, queimadas, exploração mineral toscas ou fornos de carvão, imagens que se contrapõem ao agronegócio moderno, à tecnologia e a ciência no meio rural, à sustentabilidade ambiental e a um país moderno, enfim.
Como isto são resquícios do passado e a sociedade se democratizou apenas recentemente, é de se esperar que a reforma deste código aconteça, mas ela tem sido marcada por pressões e radicalismos nem sempre produtivos e pelo passado…

Estes temas são sempre cansativos, mas o fato é que alguns dos principais personagens envolvidos na votação das mudanças nesta lei florestal me trouxeram involuntariamente para este debate, então tornou-se necessário uma apreciação minha sobre este assunto.
Neste momento (maio de 2011), estão ocorrendo vários enfrentamentos para a votação do Código Florestal. Dias em que ambientalistas, ruralistas, cientistas, governistas, oposicionistas, estão todos estressados com a lei mater de nosso meio ambiente e até mesmo fazem barganhas com o futuro do país.
As leis florestais são antigas no Brasil, o termo “madeira de lei” significa isto mesmo, algumas madeiras provenientes de árvores, que por uma lei portuguesa do tempo da colônia, necessitavam de uma espécie de “licença para corte”, pois tinham interesse para a Metrópole portuguesa. Estas leis na colônia tinham o objetivo de conter o contrabando e evitar o desabastecimento de um produto que era considerado estratégico na época, as madeiras de alta qualidade para fins naval e que, portanto, tinham alto valor comercial.

Mas estas leis não foram satisfatórias. No início do século XIX, por conta de um modelo predatório de colonização com mais de 300 anos, já era possível ver o resultado. Cientistas e estadistas como José Bonifácio já notavam que a destruição do meio natural estava gerando repercussões sociais muito amplas, com a desagregação das comunidades, pela desorganização das atividades produtivas e da vida civil, que, na visão dele, requereriam estabilidade territorial e demográfica, com isto a conservação das florestas era um assunto recorrente para ele, que chegou a escrever sobre este tema analisando tanto a situação de Portugal como a brasileira.
Na época da independência do país, ele propôs novos regulamentos e uma administração fundamentada em conhecimentos científicos e na experiência, algo que na prática levaria ainda mais de 100 anos para ter uma chance de acontecer. Ela propunha um discurso novo, de proteção dos recursos naturais do país, que considerava como trunfo do Brasil para seu progresso futuro, o que passaria pela superação, entre outras coisas, do modelo agrícola colonial latifundiário, monocultural e predatório.

Mas com isto ele se chocou diretamente com o pensamento conservador predominante, tanto em Portugal como no Brasil, tendo de enfrentar oposições e resistências a seus projetos, que batiam de frente contra traficantes de escravos e proprietários rurais que eram a base das fortunas e do poder conservador da própria monarquia brasileira.Esta história, que contei aqui de forma reduzida foi publicada com um pouco mais de detalhes em um artigo que publiquei, em 2007, no jornal eletrônico Ciência Hoje, de Portugal, a partir de textos do próprio Bonifácio. (leia aqui)
Ao longo do tempo outras leis foram surgindo. Cheguei a fazer um apanhado delas no meu primeiro livro: “
O que é engenharia florestal” 



 O fato é que Bonifácio foi derrotado e apenas quando já ia longe a república é que viria uma legislação mais integrada para a área florestal. Em 1934 surgiu uma primeira consolidação de leis florestais dispersas. Foi fruto do esforços de juristas durante o período Vargas.
O Código Florestal da Era Vargas era muito mais uma lei oportunista do que qualquer coisa. Excessivamente liberal, ele corria atrás da oportunidade do surgimento de um mercado para a madeira brasileira, em particular do pinheiro do Paraná e ignorava, ou pior ainda, lamentava, a existência da biodiversidade brasileira, fazendo vista grossa para o desmatamento que já ocorria no país. Mesmo assim ela implantou inovações como parques nacionais e um serviço florestal nacional. Também esta história está contada em um artigo da Ciência Hoje.

Curiosamente estes artigos da Ciência Hoje de Portugal, que eu classifico como sendo de história ambiental de nosso país tem tido os destinos mais variados. Já vi migrarem para um site de psicologia, de educação, de sociologia, de história ou mesmo para o site da embaixada de Portugal.
Um dos locais para onde artigos meus migraram, como este do código de Vargas, foi o blog de Ciro Siqueira, um engenheiro agrônomo que milita em seu blog para que deixem de existir Reservas Legais em propriedades privadas. Ele costuma juntar argumentos para mostrar que as leis florestais não funcionam, o que é apenas parcialmente verdade, pois praticamente todas foram feitas de forma autoritária e hoje estamos em uma democracia, momento em que as leis tem maiores chances de serem aplicadas e funcionarem.
Infelizmente Ciro parece ser do tipo destemperado, assim algumas das suas opiniões, até razoáveis, pois o código já tem quase 50 anos, são empalidecidas por opiniões destemperadas. Ele costuma escrever coisas do tipo: “os idiotas úteis do ambientalismo cibernético estão hoje alvoroçados com a notícia de que a Academia Brasileira de Ciência (ABCD) e a Sociedade Brasileira para a Preservação dos Paradigmas (SBPC) lançarão em breve um libelo contra a modernização do Código Florestal”. Mas o que se vê no tal relatório destas entidades é o resultado de um debate e até mesmo uma proposta de revisão, com viés científico, mas não estanque.

Com isto, cientistas são para ele: alheios à realidade nacional, já o Conama, Conselho Nacional do Meio Ambiente, aparece como estando impregnado de ambientalistas, já os orgãos ambientais são ridicularizados, até quando fazem justamente o que ele criticava, aplicam a lei. Tudo isto, infelizmente desvaloriza o esforço deste profissional e o coloca em uma posição tão radical quanto os radicais que ele critica.
Finalmente, a posição oficial dele é a de que apenas o Estado deve ser responsável pelas reservas florestais, pois ele considera que a função social da propriedade rural é produzir alimentos. Assim, segundo ele, caso haja propriedades em regiões ecologicamente importantes onde a preservação conflita com a produção (?), não deveriam haver produtores nessa região e o Estado deveria removê-los completamente. Lamentavelmente esta é a principal falha do raciocínio deste autor e a mais danosa ao meio rural. Pois é uma ação extremamente contraditória, custosa e desarticuladora para o meio rural. Imagine-se o ônus (impostos, novo funcionalismo público, estatais) e redirecionamento de recursos com que toda a sociedade, principalmente a que ocupa o meio rural, teria de arcar para atender a esta proposta. O Estado se tornaria imensamente mais invasivo do já é hoje, sem considerar outras formas de desapropriação que já existem e que continuariam a existir (reforma agrária, unidades de conservação, construções de represas, estradas, etc), pois a biodiversidade ambiental do país é imensa e imensos teriam de ser os esforços estatais para preservá-la, no lugar da forma como é hoje, em que o estado preserva algumas áreas e o proprietário privado outras e com isto surgem reservas públicas e privadas e “corredores” entre estas reservas. Enfim, aparentemente sem perceber, Ciro dá um tiro no pé das próprias ideias.



 O outro personagem ligado ao debate do código e que usa um texto meu como fonte de inspiração sobre José Bonifácio é o próprio deputado Aldo Rebelo, relator do projeto de mudança do Código Florestal. O projeto de Aldo é um grande arrazoado sobre o meio rural, com um tanto de saudosismo sobre o homem do campo, misturado com pitadas de nacionalismo, marxismo e até teoria da conspiração, mas tem poucos fundamentos técnicos para mudanças na lei, daí entende-se a vasta polêmica que suscitou. Ao contrário da visão de estadista de Bonifácio, preocupado com a implantação de uma visão integrada homem-natureza em nosso país, o projeto de Aldo tenta nos ganhar pela visão conservadora, defensiva e muito unilateral do meio rural, o que não seria tão problemático se a sociedade brasileira inteira, aliás o mundo inteiro não fosse afetado pela construção de uma nova lei falha.
A parte mais substancial do relatório de Aldo Rebelo diz respeito a opinião de alguns poucos juristas e cientistas. Ali aparecem ideias pouco exploradas e que deveriam merecer, sim, maiores atenções, como o zoneamento ecológico-econômico e as peculiaridades regionais, o que poderia beneficiar tanto a produção quanto a conservação. Isto simplificaria e tornaria a discussão estritamente com base naquilo que interessa a cada região.
Mas isto não acontece e assim Aldo Rebelo fica longe do estadista José Bonifácio. O seu projeto deseduca, pois os estímulos à conservação e bom uso da natureza do país são pobres em relação aos danos que ficarão com a implantação da nova lei.  Os principais beneficiários, anistiados da lei atual, serão provavelmente os donos de grandes áreas desmatadas, como aquelas que vi na minha última visita à Amazônia (
link aqui). Ironicamente os personagens que estavam sendo pressionados pelo Estado e pela lei atual e que os partidos com um viés social mais acentuado, como o partido de Aldo, sempre combateram

Edson Struminski


terça-feira, 10 de maio de 2011

Em Defesa dos Pré - Socráticos




Por : Hélio Dehon

O que pensamos quando falamos em origem Grega da filosofia ? Sócrates, a grande gênese do pensamento, um dos grandes responsáveis pelo milagre, nunca escreveu nada, sempre perambulando por uma Atenas que ainda não preparada para o pensamento radical do esfarrapado filósofo, foi morto pela cicuta. Platão, honroso, lutador de ombros largos, nunca vacilante, adversário retórico invencível. Ficou para a posteridade intelectual como um divisor de águas, lançando base para o pensamento moderno,com a inauguração da academia, a invenção do filósofo-rei e o conceito das IDÉIAS PURAS. Aristóteles, espírito mais científico, observador e classificador da natureza, professor de Alexandre da Macedônia, não há quem negue a importância do Estagirita.

E quanto aos ditos Pré-Socráticos ? Pensadores menores, marginalizados, associados aos sofistas na qual a própria etimologia da palavra já revela seu destino, pensadores falsos, mercenários e cobradores de seus serviços ( algo impensado pelo filósofo da Academia ou do Liceu ). Sempre lembrados por sua linha de pensamento ( atomistas, hedonistas, epicuristas, céticos, cínicos) ou localização geográfica ( Jônicos, Itálicos, Abderitanos,Cirenaicos) todas cidades marginais da gloriosa Atenas, mesmo Epicuro que tinha seus jardins por lá, ainda é lembrado como “ de Samos ”. Algumas definições vão além: beberrões, se juntando a prostitutas, onanistas, glutões, orgiáticos , marginais e anti-sociais, sempre entregues ao PRAZER.O próprio termo PRÉ revela-nos um problema.Quando citamos os Jônicos, Itálicos e Eleatas nos referimos em caráter temporal a pessoas anteriores a Sócrates. Mas quando nos referimos aqueles que viveram ( e em alguns casos até conviveram ) com o filósofo da cicuta e seu pupilo mais famoso ? Principalmente os Cirenaicos e Abderitanos ? É aí que toda a trama formada por dois milênios se revela. Aí o termo PRÉ deixa de ser temporal e se torna conceitual e até pré-conceitual, como uma filosofia inacabada, não cristalizada, um pré pensamento menor, um vir-a-ser para o grande momento filosófico catártico na cidade-estado!
As palavras em negrito acima denunciam a razão. De um lado uma filosofia das idéias puras, do surgimento de um mundo inteligível e de pensamento transcendental. O pensamento se torna dualista e maniqueísta( corpo sempre desvencilhado da alma imaterial ), a verdade jamais poderá ser alcançada nesse mundo, a alegoria da caverna nos diz isso. Vivemos na aparência, vendo vultos e fantasmas do que um dia poderá nos ser revelado ou não,em uma esfera superior. Por outro lado as idéias materialistas e sensíveis desse e somente desse mundo. Monismo e imanentismo, pois, não há lugar para alma imortal nem mundo inteligível, a própria alma é formada de átomos (mais finos e leves), e quando da morte nada restará, por isso não é preciso ter medo dela. A única ética é a do prazer, do bem estar e da felicidade suprema (hedonismo e eudemonismo).

 

 Platão foi influência primordial do cristianismo. O próprio Paulo de Tarso, estrategista do cristianismo, foi diretamente tocado por essas idéias já que era helenizado, apesar de judeu que era, e teve sua educação pautada na escola grega clássica. E com o passar do tempo, já na idade média, toda a teologia de Santo Agostinho foi criada a partir das idéias transcendentais e dualistas do platonismo. Mas não só os bispos da patrística foram influenciados, depois com a escolástica foi a vez de Aristóteles, com todas as suas teses  lógicas e evidenciando o pensamento especulativo ao invés da observação e experiência ( algo que perduraria por quase mil anos ). Com a instituição da Teocracia católica, o pensamento Platônico criou corpo e começou a fazer parte do inconsciente coletivo mesmo nos dias modernos. Pouco a pouco os filósofos antigos que não professavam as mesmas doutrinas maniqueístas foram esquecidos, marginalizados, se tornaram linhas de rodapé de livros, escondidos em cantos ocultos das bibliotecas universitárias de todo o mundo civilizado, servindo de sub pensamento até serem finalmente classificados como PRÉ!
Como prestigiar a afirmação do corpo sobre a alma, o imanente sobre o transcendente, o finito sobre o infinito, a vida terrena e única sobre a vida celestial e eterna, o hedonismo sobre o ascetismo. O próprio conceito de prazer e sensual mudaram de significado com o passar dos tempos, sempre associados mais ao caráter sexual que natural da questão. Sensual provém dos sentidos daquilo que podemos não só ver e ouvir, mas tocar, cheirar e degustar, sentidos esses últimos também pormenorizados por unirem o homem a suas origens animais, coisa inaceitável para a perfeição celestial. Só o corpo pode sentir, só a matéria e nada mais. Prazer tem mais a ver com a não aceitação daquilo que faz mal ou o desprazer, a convivência comunal, uma boa alimentação, saúde plena e é óbvio, uma vida sexual plena. Hedonismo visto como devassidão, aí uma coisa que os deturpadores do mundo natural sempre se empenharam em fazer!
Com essa concorrência desleal o “Triunvirato” filosófico, dificilmente será substituído dos livros, manuais, documentários como os verdadeiros demiurgos do pensamento moderno. A não ser que de tempos em tempos surjam pessoas levantando a bandeira dos “pré-socráticos” (Nietzsche, Carl Sagam, Michel Onfray,etc), para poucos mas atentos leitores.


Hélio Dehon
dehon732003@yahoo.com.br


quinta-feira, 5 de maio de 2011

A Filosofia e seus Contrastes



Por : Emmanuelle Pesch

A filosofia, atualmente inserida no Ensino Médio como disciplina regular, é questionada com frequência sobre a sua importância, muitas vezes enfrentando preconceitos por parte de professores das outras disciplinas e até das próprias instituições de ensino. O motivo maior dessa ‘rejeição’ à filosofia deve-se ao seu caráter não-metodológico, pois ao contrário das disciplinas técnicas, a filosofia não apresenta respostas absolutas, nem segue padrões de ensino.
Na educação, a filosofia visa levar ao aluno um estudo histórico acerca dos pensamentos que contribuíram para a formação das ciências, estimulando-os à reflexão – acerca da realidade, das informações que recebe, da sociedade como um todo e de si próprio. Outro objetivo é a preocupação em capacitar o aluno na formação do senso crítico, como a formação de argumentos coerentes e a auto-análise, para que o aluno não apenas reproduza o que ouve e lê, mas que também questione-se e compreenda.
A filosofia se preocupa com o entendimento da disciplina em sua totalidade, a essência da compreensão, do processo investigativo, e não a simples normatização do processo compreensivo, onde os conteúdos são esquematizados e apenas decorados pelos alunos. A hermenêutica - um ramo da filosofia que se debate com a compreensão humana e a interpretação de textos escritos – não é científica, mas filosófica, e é existencial e não metodológica. Dá-se, a partir daí, o contraste entre a filosofia e as disciplinas de caráter técnico.

A caracterização do pensar como theoria e a determinação do conhecer como postura ‘teórica’ já ocorrem no seio da interpretação técnica do pensar. É uma tentativa reacional, visando a salvar também o pensar, dando-lhe ainda uma autonomia em face do agir e operar. Desde então, a filosofia está constantemente na contingência de justificar sua existência em face das ‘Ciências’. (HEIDEGGER, 1979, p. 150)





As disciplinas técnicas como a Matemática, estão diretamente inseridas nos concursos públicos e vestibulares, o que intensifica sua relevância no âmbito social. A intenção mais comum entre os estudantes do ensino médio é a aprovação nesses concursos, principalmente para as vagas nas universidades. Como a disciplina de filosofia não se destaca como presença nas questões desses concursos, muitas vezes o aluno acaba por não conhecer sua importância, e passa a vê-la com banalidade.
Ressalto aqui a falta de comprometimento que a educação brasileira apresentou até agora em relação a filosofia, desaparecendo por diversas vezes do cenário educacional do país.
De acordo com a trajetória instável da filosofia na educação, e considerando sua extinção principalmente na época da ditadura militar em 1972, e com tantos fatos intrigantes que acontecem na realidade do país, principalmente nas relações políticas, podemos ficar com a impressão de que as nossas autoridades não apresentam interesse em formar pessoas pensantes e questionadoras.
É nitidamente conveniente aos responsáveis por muitas das injustiças sociais que a população brasileira ocupe-se com questões voltadas a prática metodológica, do que oferecer aos cidadãos a chance de abrir os olhos – ou platonicamente sair da caverna escura. De acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais,

Independente da maneira como uma determinada orientação filosófica esteja configurada, ela sempre concebe seu empreendimento não tanto como uma investigação que tematiza diretamente este ou aquele objeto, mas, sobretudo, enquanto um exame de como os objetos podem nos ser dados no processo de conhecimento, como eles se tornam acessíveis para nós. Mais do que aquilo que se tem diante da visão, a atividade filosófica privilegia o ‘voltar atrás’. (PCN, 2000)

A filosofia se contrapõe com as disciplinas técnicas por essa atitude de reflexão, de análise do objeto de estudo como um todo, e não apenas ao fim a que este se destina. “A técnica é a essência do saber, que não visa conceitos e imagens, nem o prazer do discernimento, mas o método, a utilização do trabalho de outros, o capital”. (ADORNO; HORKHEIMER, 1985)

Porém, uma vez integrada na educação, a filosofia corre o risco de virar método ao obedecer os padrões educacionais. Cabe então, ao professor, saber adequar a disciplina sem que ela perca seu caráter diferenciado. Uma opção interessante seria adotar maneiras alternativas de ensinar a filosofia, com músicas, textos e imagens que façam parte da realidade do aluno e que possam ser relacionados com os temas filosóficos a serem apresentados.
Outro risco que a disciplina de filosofia corre é a sua exclusão – novamente – das grades curriculares. O motivo que fundamenta essa hipótese, como já foi citado, é a exigência do sistema atual em produtividade mais mecânica do que racional, mais automatizada do que reflexiva.


Contradizendo-se com a metafísica da filosofia, o objetivo principal do esclarecimento é substituir a imaginação pelo saber, tornando o homem senhor do conhecimento.
O homem tem a pretensão de respostas e verdades universais, procedimentos eficazes para facilitar a vida prática, dominando a natureza e os próprios homens. Na ciência moderna, as fórmulas e as regras acabaram substituindo os conceitos filosóficos, utilizando processos de calculabilidade do mundo, e os números ganharam proporção no ápice do esclarecimento.

O processo técnico, no qual o sujeito se coisificou após sua eliminação da consciência, está livre da plurivocidade do pensamento mítico bem como de toda significação em geral, porque a sua própria razão se tornou um mero adminículo da aparelhagem econômica a que tudo engloba. (ADORNO; HORKHEIMER, 1985)

Aqui, Adorno e Horkheimer enfatizam que o homem, quando obedece o processo técnico sem de fato utilizar a razão, perde sua consciência enquanto humano, enquanto autor de seus atos e passa a ser um objeto do tecnicismo.
E onde fica a metafísica em todo esse processo? Na razão esclarecida, viajar em mundos inteligíveis é sem sentido, a metafísica perde seu valor, e domina a ausência da busca pelo entendimento da alma, do sublime, o universo é limitado.
Segundo Adorno e Horkheimer , o esclarecimento “pôs de lado a exigência clássica de pensar o pensamento [...], o processo matemático tornou-se, por assim dizer, o ritual do pensamento. Ele se instaura como necessário e objetivo: transforma o pensamento em instrumento igualando-o ao mundo”.
A própria natureza é expressa como uma multiplicidade matemática, onde os mistérios não se fazem presentes. Há uma verdade à priori, que só precisa ser esquematizada, como se o mundo não fosse uma incógnita em permanente construção, mas que precisa ser solidificada e passível de explicação.

A racionalidade técnica hoje é a racionalidade da própria dominação. Ela é o caráter compulsivo da sociedade alienada de si mesma. (...) Por enquanto, a técnica da indústria levou apenas a padronização e a produção em série, sacrificando o que fazia diferença entre a lógica da obra e a do sistema social. Isso, porém, não deve ser atribuído a nenhuma lei evolutiva da técnica enquanto tal, mas a sua função na economia atual. (ADORNO; HORKHEIMER, 1985)

Um fator que torna o homem humano insubstituível é a sua capacidade de se apropriar do inteligível, de ser tocado pelo sensível. Um exemplo cômico disso pode ser notado pela interpretação de Charles Chaplin no filme ‘Tempos Modernos’, onde a máquina não só substitui o trabalho manual do homem – influências da Revolução Industrial – mas também o domina a ponto dele próprio se sentir impotente diante do seu próprio mundo. Porém, a identidade e a imaginação não são de forma alguma produzidas pela técnica.

A cultura de cada ser humano, suas experiências, dificuldades, expectativas, princípios, não existem para a realidade técnica, que enxerga todos os homens como um só, como na música ‘Admirável gado novo’, do Zé Ramalho, “(...) vida de gado, povo marcado e povo feliz”, o compositor nos faz refletir que o homem, ao fazer parte da massificação imposta pela técnica, pode-se comparar aos gados em uma fazenda, onde todos são iguais, fazem as mesmas coisas, respeitam os mesmos limites e, inconscientes de sua condição, acabam por se contentar com essa realidade.
De acordo com Adorno e Horkheimer “o terreno no qual a técnica conquista seu poder sobre a sociedade é o poder que os economicamente mais fortes exercem sobre a sociedade”. Ou seja, os desejos e ideais do povo são geralmente imitações da indústria cultural dominante, que mesmo sem o público perceber, está sendo constantemente manipulado, pois o fator econômico predomina sobre a sociedade, e os mais ricos influenciam e direcionam a indústria comercial.

“A racionalidade técnica hoje é a racionalidade da própria dominação. Ela é o caráter compulsivo da sociedade alienada de si mesma”. (ADORNO; HORKHEIMER, 1985).

Infelizmente, a técnica da indústria não se tornou culturalmente uma revolução com grandes êxitos positivos, ao se pensar a potência que ela teria para tanto, mas se tornou uma produção em série, apenas réplicas padronizadas. O público aceita e se deixa iludir pelas falsas verdades.

Embora existam muitas diferenças nos pensamentos de Adorno e Horkheimer em relação a Heidegger, ambos se preocupam com a massificação presente na realidade do homem moderno, que cada vez mais estagnado, deixa-se diminuir pela não-cultura:
Ao subordinar da mesma maneira todos os setores da produção espiritual a este fim único: ocupar os sentidos dos homens da saída da fábrica, à noitinha, até a chegada ao relógio de ponto, na manhã seguinte, com o selo da tarefa de que devem se ocupar durante o dia, essa subsunção realiza ironicamente o conceito da cultura unitária que os filósofos da personalidade opunham à massificação. (ADORNO & HORKHEIMER, 1985)

Os meios de comunicação em massa são aceitos pelos olhares ingênuos da população como fonte de verdade absoluta, como se a realidade transmitida através da televisão fossem o espelho do país, e não passa pela mente dos fiéis telespectadores que a imagem que reflete essa realidade pode ser um produto contraditório. O público hoje está preso na televisão como os homens antigos estavam presos á caverna, na alegoria de Platão, sem investigar de fato a realidade, e se ater ao que lhe é transmitido como única fonte de verdade.

Um contraste entre a técnica e a filosofia, pode ser exemplificado com o homem coletivo - produto da indústria cultural - e o homem filósofo, pois o homem coletivo tem pensamentos, ações, preferências e objetivos quase idênticos uns dos outros, é ausente de autenticidade e reflexão sobre si mesmo e está diretamente ligado ao consumismo e a produção, faz parte da massificação. E põe-se em contraponto com o homem filósofo, criativo, independente da indústria cultural, que entende a filosofia como um magnífico instrumento de decodificação do mundo.

Emmanuelle Pesch
manu_pesch@hotmail.com



sábado, 9 de abril de 2011

O Brasil , a Cerveja , a Natureza e o Império ...



Por : Edson Struminski

As imagens são recorrentes: propaganda de cerveja mostra sempre lindas mulheres em roupas sumárias em alguma praia paradisíaca. Embora pareça estranho e paradoxal, a origem deste estereotipo brasileiro feminino pode estar em um período altamente conservador pelo qual o país passou, o período imperial e tem a ver com nossa natureza exuberante, índios, desmatamentos, etc...
O Império brasileiro é certamente uma instituição singular na geografia política da América e um momento único na história brasileira. Hoje temos que reconhecer, claro, que seu conservadorismo contribuiu para que o país mantivesse o sentido de nação e com a unidade do seu território, relativamente pouco afetado por guerras e revoluções desagregantes (como aconteceu na América espanhola). Da transição do período colonial português para o imperial brasileiro, mantiveram-se estruturas de governo funcionais, algumas instituições científicas e técnicas criadas durante a permanência de D.João VI no Brasil, portos abertos para o mundo, algumas experiências modernizadoras (reflexos da Revolução Industrial mundial), mas principalmente um espaço físico ainda desocupado pela civilização portuguesa e subexplorado e, portanto, passível de experiências civilizatórias e de elaboração de discursos pelos brasileiros, finalmente “donos” do seu país. Claro que, no final, seria este mesmo conservadorismo que acabaria decretando o fim do império, embora este seja tema de outro artigo.
O império aconteceu no Brasil, então, pelo entendimento da elite brasileira da época de que a monarquia aparecia como o único sistema capaz de assegurar a unidade do vasto território brasileiro e impedir o fantasma do desmembramento vivido pelas ex-colônias espanholas vizinhas e que já andava por aqui. Com isto, as representações simbólicas do poder imperial evocavam elementos de longa duração, como justiça, paz e equilíbrio, provenientes da longa tradição monárquica européia, o que de certa forma ressaltava a homogeneidade da elite política brasileira que detinha o poder na época, basicamente educada em Portugal, nos moldes da realeza e com poucos pendores para aventuras republicanas.




É efetivamente no regime monárquico que se forjou no Rio de Janeiro, então capital política, econômica e cultural do país, um padrão de comportamento mais moderno que moldaria o país no século XIX e se mantém, em muitos aspectos, até hoje. Além do Rio, situado estrategicamente no meio do país, o que impediu um maior distanciamento das províncias do centro do poder, as metrópoles regionais Recife e Salvador formariam a tríade de cidades portuárias que difundiriam a modernidade oitocentista no Império. Esta modernidade até estava calcada em um liberalismo menos conservador e produziria uma crítica social constante e ferina durante todo Império e que em raras ocasiões seria reprimida, mas seria uma modernidade urbana, restrita a estas cidades.
No entanto, mais do que se incomodar com eventuais críticas, o governo imperial estaria preocupado em forjar uma identidade própria para o país dentro do concerto de nações. Para isto seria necessário criar um discurso unificador que unisse a tradição da monarquia aos atributos naturais brasileiros.
Diante da busca por um discurso que representasse o país, o romantismo surgiu para os intelectuais comprometidos com a causa brasileira como o gênero capaz de exprimir, de forma original, as singularidades da nação. Assim, em 1836, um grupo de jovens brasileiros residentes em Paris fundou a revista Niterói, que apesar da vida curta, pode ser considerada o marco do romantismo brasileiro. A revista buscava a exaltação das originalidades brasileiras, fazendo com que o romantismo viesse de encontro ao desejo de manifestar na literatura uma especificidade do jovem país, em oposição aos cânones legados pela pátria-mãe ou pelos demais países europeus.
Enquanto isto, no Brasil, acontecia a descoberta do país pelos próprios brasileiros. Os altos funcionários imperiais começaram a apoiar a investigação científica sobre os recursos naturais do país e incentivaram a criação de novas instituições científicas, retomando a proposta do articulista da independência José Bonifácio de Andrada e Silva. Estas instituições materializaram o discurso científico cartesiano, na forma da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional (SAIN) em 1827, do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) em 1838 (ano da morte de José Bonifácio), do Núcleo Imperial de Horticultura Brasileira em 1849 e da Sociedade Vellosiana em 1851, entre outras. Os membros destas sociedades, naturalistas e técnicos, viajados e instruídos, expressavam o temor quanto ao dano ambiental pela intensificação da atividade econômica e pelo adensamento populacional e estariam fadados a enfrentar questões ambientais e de conservação da natureza.



Em, 1840, porém, a unidade do país estava ameaçada por revoltas internas e pela ausência de um verdadeiro monarca no poder, pois Pedro I voltara para Portugal e Pedro II era muito jovem. Aos 15 anos de idade ele acabaria sendo declarado maior de idade para poder assumir o poder e apaziguar o país. Apesar da juventude, Pedro II acabaria fazendo uso freqüente do poder moderador conferido pela constituição do país à sua pessoa, para decidir, como verdadeiro monarca absolutista, os destinos da nação.
Com a entrada de D.Pedro II no IHGB e seu mecenato, o romantismo brasileiro se transformaria em projeto oficial, em verdadeiro nacionalismo e como tal passaria a inventariar o que seriam as tais originalidades locais, representando o país segundo os interesses do Estado. Os intelectuais de formação cartesiana do instituto representariam de fato elementos essenciais para a construção, inclusive simbólica, da ordem nacional e de uma ponte para o relacionamento direto entre os intelectuais e o poder, mas o romantismo no Brasil, seria muito mais do que uma mera reação aos excessos materialistas e racionalistas do pensamento cartesiano, como algumas vezes se comenta. Ele seria uma ideologia de estado.



 Assim, a crítica ambiental brasileira do período acabou tendo muito pouca influência do naturalismo romântico, este movimento não pode de forma alguma ser desprezado, pois o mesmo não pode ser dito da cultura oficial, responsável pela construção de uma identidade que pudesse ser identificada como nacional. A natureza brasileira cumpriu função importante no período romântico. Sem castelos medievais, templos romanos antigos e poucas batalhas heróicas para relembrar, sobravam o maior dos rios, a mais bela vegetação, cachoeiras gigantescas e árvores enormes, além, é claro, dos seus habitantes nativos, originalmente (como mostra a carta do descobrimento de Pero Vaz de Caminha) tão receptivos e liberais na sua pureza original. Assim, é entre palmeiras, abacaxis e aves silvestres, que apareceriam caracterizados o monarca ou a nação, tanto em técnicas tradicionais como na pintura como em inovadoras como na fotografia, da qual Pedro II foi entusiasta. Os índios atuavam como nobres no exuberante cenário da floresta brasileira e em total harmonia com ela e com os brancos dominadores.
A presença dos índios nas representações oficiais representa, de fato, um capítulo à parte nesta história. Impossibilitado, pela escravidão negra, de vender a imagem de “harmonia racial” (como ainda hoje se tenta fazer no Brasil com a igualdade), o discurso oficial procurou estimular uma literatura nacional romântica, porém autônoma, sob os moldes do indigenismo. O intuito era o de criar um passado e buscar continuidades temporais e uma antiguidade para a jovem nação, o que significava um retorno ao “bom selvagem” de Rosseau. Sabia-se muito pouco sobre os indígenas, mas na literatura fervilhavam os romances épicos que traziam indígenas heróicos, semi-nus, em amores silvestres com a floresta virgem como paisagem. Cenário ideal para vender cerveja se houvesse alguma fábrica na época. Estas imagens seriam recorrentes e para isto o quase europeu D.Pedro II contribuiria, distribuindo imagens oficiais onde apareceria ladeado de indígenas, flores e árvores tropicais, além de ramos de café e tabaco, alguns dos principais produtos exportados pelo Brasil na época.
Assim a literatura e as demais artes cederam espaço para o discurso oficial e palaciano. Assim como as garotas são usadas para vender cerveja, a natureza exuberante e o indígena transformado em modelo nobre foram usados, tomando parte, mesmo como perdedores, ou em posição inferior, na gênese do Império. Transformado em uma monarquia dos justos, o Império aparece como contraposto à colonização portuguesa, que passou a ser vista como terreno da desigualdade, ainda que questões básicas como a devastação da natureza, a escravidão e o extermínio da própria população nativa fossem as mesmas nos dois períodos. Os temas eram nacionais, mas a cultura, em vez de popular, era palaciana e voltada para uma estetização da natureza local e de uma idealização da população nativa.
Com isto, percebe-se que a elite política e intelectual dirigente do Império foi suficientemente competente para construir uma imagem e um discurso para o país, sustentar uma estrutura política estável e preservar a unidade de um enorme território, em alguns casos a ferro e a fogo, porém sua capacidade para dirigir, aperfeiçoar ou transformar as relações de produção e sociais no país real foi muito inferior. A natureza era bela, mas distante e pouco conservada. O índio era nobre, mas invisível. A capacidade de intervenção do governo imperial, mesmo com os enormes poderes que Pedro II dispunha era limitada, quando confrontada com os interesses privados, principalmente rurais. Por isto, mesmo que esta elite estivesse unida no combate da economia predatória da natureza, ou no resgate social da população indígena, o que evidentemente não estava, é bem provável que sua capacidade de deter a destruição natural ou a degradação social fosse restrita. Na prática a devastação, profundamente arraigada na sociedade escravista, continuou sendo a fonte de renda que sustentou a elite econômica e a máquina do Estado brasileiro, independente da bela e confortadora imagem de harmonia natural e racial que os artistas românticos, financiados pelo Estado, passavam para a população.


Após consolidar esta imagem naturalística romantizada no país, o Império, capitaneado pelo próprio D. Pedro II passou a participar, com entusiasmo, das imponentes exposições internacionais que aconteciam na Europa e nos Estados Unidos. Nestas exposições começou-se a difundir a imagem de um enorme país exótico, com natureza exuberante e selvagem e com habitantes (indígenas) belos, nobres e liberais na sua nudez. Esta imagem oficial e estereotipada persiste. O Brasil segue sendo o local onde se encontra a maior e mais espetacular floresta do mundo, é um campeão da biodiversidade e da exportação de produtos do agronegócio e a liberalidade nas praias e no carnaval seguem sendo o chamariz preferencial para atrair os turistas (inclusive o turista sexual) para férias no país. Bem e quanto aos indígenas, após cumprirem este papel, em grande parte desapareceram, inclusive dos romances...
Edson Struminski
edson_struminski@yahoo.com.br


quinta-feira, 7 de abril de 2011

Mafalda e Lisa Simpson : Gêmeas siamesas


Por : Lord Vader

A despeito de nascerem separadas cronologicamente por 25 anos,  à uma distância de quase dez mil kilometros uma da outra , e, é claro, isoladas pelo imenso istmo sócio-cultural que as rechaçam ainda um pouco mais : uma bela morena Argentina dos anos de chumbo e uma Loira norte americana nascida na era Reagan , Mafalda e Lisa Simpson nada mais são do que irmãs gêmeas , espíritos-livres dotadas da mesma essência crítica , resultados da visão de dois cartunistas brilhantes , e cada uma delas um retrato de seu tempo. Clones conceituais separados no nascimento.
É bem verdade que Mafalda é a Lisa Simpson original. Uma adorável menina de 6 anos , que é sem dúvida a coisa mais sensacional a surgir na terra de nossos, ora prezados , ora desafetos, hermanos do sul . Mafalda é uma menina talentosa , agraciada com um senso crítico e uma visão de mundo muito acima do esperado para uma criança de bairro . Basicamente é uma adulta aprisionada em um corpo infantil. Uma humanista , livre-pensadora , que representava nada menos do que o arquétipo do liberal de esquerda tão comum en sudamerica , numa época ligeiramente anterior ao controle de seus morféticos generais , quando certamente não poderia mais ser publicada em hipótese alguma.



Na verdade existe uma semelhança mais ampla entre as duas , não apenas em termos sociais (ambas saídas de famílias de classe média baixa) , mas também em relação ao próprio núcleo familiar em si.
Embora seu pai ("Pápá") não seja o troglodita boçal que é Homer Simpson (uma violenta sátira ao americano médio e suas efêmeras aspirações) , sua mãe ("Mamã") , assim como Margie Simpson, é uma dona-de casa que não concluiu os seus estudos , e por isso é vista de maneira ressentida por Mafalda, (exatamente como Lisa , que vê sua mãe da mesma forma neste aspecto), e com a qual entra em conflito quando ela prepara sopas e macarrão (a restrição alimentar de Lisa é ser vegetariana).
As duas possuem irmãzinhas menores que são igualmente brilhantes e talentosas , já nos primeiros anos. Gui já começa a formar sua visão de mundo enquanto Maggie é um prodígio com QI de três dígitos !
Mafalda surgiu em 1962 numa campanha publicitária para o jornal portenho Clarin , e se tornaria um cartoon apenas dois anos depois , pela sugestão  de um amigo de Quino , seu genial criador. As tiras foram publicadas até 1973 , uma vez que depois disso já não havia mais ambiente político para a coisa continuar
na terra de Gardel, assolada por uma brutal ditadura militar. Posteriormente, Quino ainda desenharia Mafalda em algumas ocasiões , sobretudo para promover campanhas Humanitárias . Em Buenos Aires , o amor pela menina lhe garantiu uma praça com o seu nome .

Obviamente não há porque se pensar em plágio , mas certamente em referências . Matt Groenning , o criador dos Simpsons , é por sua vez também um pequeno gênio , figura sagaz e relutante que se utiliza das benesses do sistema para atacá-lo (ficou trilhardário às custas do império do mal Fox). É um dos poucos fiéis de balança na terra do hamburguer com fritas , e sua pegada ácida escancarou a porta para dezenas de outros cartoons anti americanos que surgiram na sua cola. Certamente Groenning conhecia a obra de Quino , sendo o sujeito meticuloso que é , extremamente culto e, ao contrário do americano médio, interessado na produção cultural realizada fora da lingua de William Shakespeare . Enfim , numa comparação superficial e ligeira, Mafalda é uma linda morena , de sangue latino , cujas preocupações eram a guerra fria , os meninos de rua , o contexto político mundial , e mesmo ciente de que a era hippie já havia passado , alimentava fantasias de transformações não apenas em sua anêmica república subdesenvolvida , mas também de paz mundial , sendo o seu projeto maior crescer e trabalhar como tradutora na ONU e contribuir com o este processo.



Já Lisa Simpson , mesmo com um forte sentimento idealista, possui uma visão levemente pessimista do mundo , em parte por conta de seu forte pragmatismo e racionalismo cartesiano , em parte pelos sinais dos tempos . O sonho acabou já há tanto tempo ... Ainda assim é vegetariana , luta pelos direitos dos animais , teme o aquecimento global acima de tudo. É uma grande fã de Jazz (Mafalda ama os Beatles , por suposto )e se esforça para manter sua aura cult . Ateísta e intelectual sofre secretamente por sua inadequação, e nada mais é do que um divertido arquétipo do intelectual americano, marginalizado pelo senso comum (me lembro aqui da máxima do mestre Frank Zappa : " Nesse país os intelectuais nunca ganham uma chupada , então eu prefiro tocar guitarra do que escrever") . Seu maior objetivo é ingressar em uma universidade prestigiosa , se graduar com louvores , casar-se com um rapaz judeu (muito embora seu forte traço feminista já tenha levantado sutis questionamentos sobre a sua sexualidade) e finalmente , se libertar do pesadelo suburbano em que está aprisionada , de sua família disfuncional , e sobretudo de seu pai portador de problemas mentais (Lisa vive um conflito de ambivalência muito forte com o seu pai).
Lisa e Mafalda, duas formidáveis iconoclastas ,mulheres assim tão fortes, mas ao mesmo tempo essas meninas encantadoras que tanto amo, talvez tenham um primo cruzado mais novo, com quem compartilham algumas características : Calvin . Mas isso já é assunto para outra postagem ...

Lord Vader



sábado, 2 de abril de 2011

O Espírito do Espiritismo





Por : Lord Vader

Dentre tantas crenças e convicções filosófico - religiosas que povoam o imaginário coletivo , uma em particular me deixa bastante perplexo em relação tanto aos seus princípios como quanto a seus seguidores : a crença nos espíritos , e sua idéia central de que estes seres são almas de pessoas mortas que exercem sobre aquele que crê uma influência invisível, mas poderosa , podendo inclusive se apossar dos vivos e das coisas que os cercam. Sabidamente esta é uma crendice universal que acompanha o ser humano ao longo da história , difundida desde povos profundamente primitivos, até os povos tidos como civilizados do ocidente , pretensamente esclarecidos e até intelectualizados, que alimentam esta crença metafísica tão impregnada na cultura das massas, aparentemente vivendo satisfeitas em seus próprios castelos de superstição.

A despeito da força das correntes filosóficas materialistas , e até mesmo do escárnio público , essa crença segue inabalável entre um imenso número de adeptos que utilizam a fábula dos espíritos como uma defesa pessoal contra suas emoções mal controladas , ou mesmo a favor da infantil não aceitação da própria e inegável finitude e degeneração. O espiritismo é uma orgia necrofílica que arranca seus seguidores dos laços
com o mundo tangível e material, e os coloca na trincheira entre dois universos existênciais : para eles a realidade física é, ao mesmo tempo, um mundo povoado de espíritos. Neste aspecto , consegue ser ainda mais decadente do que o próprio cristianismo, detentores do ressurecionismo por excelência.

O espiritismo é, antes de tudo, uma proteção contra a má vontade dos mortos. Uma manifestação histérica herdada dos povos mais primitivos e das instâncias mais arcaicas da mente humana , pois data de tempos imemoriais a oferta de agrados nos túmulos de ancestrais, hábito enraizado em tantas culturas antigas ou
pouco evoluídas. Configura-se porém em nossos dias num ritual de caráter delirante, alucinatório e catatônico.



O espiritismo nada mais é do que a realização dos complexos inconscientes de seus praticantes , pois é justamente nas idéias delirantes que mais claramente vêm à tona o obscuro e o secreto de cada um. Os espíritos são fruto de fantasias patológicas ou idéias desconhecidas perdidas no inconsciente dos crentes , sejam estas idéias boas ou más. Acredito francamente que a maioria das idéias projetadas são positivas visto que os praticantes do espiritismo são, ao menos na grande parte que conheço, pessoas afins de fortes princípios éticos , que encontram nesta religião, antes de mais nada ,uma excelente oportunidade para aliviarem o inevitável mal estar de possuírem mais do que precisam para viver bem , o que, no final das contas, não seria uma coisa ruim , no sentido estritamente pragmático , visto que estas pessoas usam a religião também como filantropia.

Seus sacerdotes , durante seus acessos histéricos (simulados ?) distribuem suas próprias perturbações mentais às pessoas que estão à sua volta à procura da orientação dos ditos espíritos manifestados através do médium , sem perceberem que estão sendo vítimas de uma estúpida ilusão . Esses espíritos não passam de meros complexos que eclodem do inconsciente do médium , e aparecem sob a forma de uma projeção simulada . Exatamente o mesmo processo milenar dos cultos animistas e xamãnicos , ainda praticado nas religiões africanas e demais ritos bárbaros (no sentido de pouco esclarecidos), que obviamente representam
grande parte da tradição mitológica ancestral. Entretanto , em nossos dias , o espiritismo se apresenta servido sob uma roupagem pseudo científica , etérea e intelectualizada, sempre à procura de quem os considere.

Por outro lado, pode ser apresentada também como encantador exercício de antropologia (o que de fato é) e integração cultural, no caso do espiritismo dito de baixa roda , ambos faces diferentes da mesma moeda (porém os segundos praticantes são de um modo geral severamente discriminados pelos pretensamente caridosos primeiros).
A atmosfera primitiva em que surgiu pela primeira vez a palavra "espírito" ainda sobrevive inegávelmente na humanidade , mesmo que em um nível situado abaixo da consciência. Mas, como nos mostra o espiritismo moderno, não é preciso muita coisa para trazer à tona esta parcela na mentalidade naqueles que não se valem totalmente do julgamento do intelecto frente ao emocional. Parece que basta apenas ser necessário acreditar.





Lord Vader
ensaiosemanifestos@hotmail.com